quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Nova bagagem

 
 Fiquei aqui nessa indecisão danada entre fazer ou não um post de fim de ano. É que sempre acabo me apegando aos clichês desta data. Bem, pelo sim ou pelo não aqui estou eu.
 Durante o almoço passei alguns minutos refletindo sobre minhas atitudes durante o ano. Não fui nem de longe a melhor pessoa do mundo, ou da cidade, ou do bairro, ou do meu trabalho. O que é bom, afinal, parece ser um fardo muito pesado para se carregar. Ser o "melhor" parecer tão egoísta, além de uma tamanha ilusão.
 Erros cometi aos montes. Só que dessa vez eu realmente tirei uma lição deles e me livrei de todo e qualquer arrependimento que pudesse tomar conta de mim. Na verdade, arrisco dizer que podem ter sido os erros mais certos que já tive a cara de pau de cometer. É que pela primeira vez depois de anos não me sinto mais a garota ingênua e insegura de alguns anos atrás.
 Quer dizer, agora eu meio que tenho uma bagagem pra carregar. Uma bagagem não de mágoas, rancores e momentos embaraçosos no decorrer de 19 anos de vida, mas sim uma dessas com experiências significantes - ou nem tanto.
 Eu também acertei algumas vezes. Mas o que mais me orgulho de ter feito é de tomar como parte de mim alguns riscos extremamente relevantes - me orgulho até dos insignificantes.
 É possível que não tenha cumprido todos os itens de minha lista de mudanças para o ano de 2012. Fico bem feliz de tê-la jogado fora, apesar de ter cumprido ao menos alguns dos itens.
 Pois é, eu finalmente fui ao show da Demi Lovato, eu me apaixonei, me desapaixonei, aprendi a me amar como nunca havia feito antes, aprendi a amar ainda mais verdadeiramente pessoas à minha volta. Eu também devo ter sido extremamente honesta com outras. Se toquei em algumas feridas, bem, desculpe. Mas acredito de verdade que tudo acontece por uma razão.
 Eu fiquei bêbada, dei risada, filosofei na mesa de bar, fiz amizade com estranhos que mais tarde tornaram-se parte de momentos importantes da minha vida. Entrei na faculdade, larguei um sonho, me deprimi, ergui a cabeça e busquei por outros - além de ter sobrevivido à um falso apocalipse.
 Então, sei lá. De repente em certos aspectos morais eu devesse me arrepender de cada gota de álcool, de cada beijo e de cada palavrão que atravessou meus lábios durante estes doze meses. Só que não posso. Me parece uma grande idiotice.
 De 2013 eu não espero nada. Assim como 2012 fez, vou deixá-lo me surpreender.
 A simples sensação de não ter o controle do passado ou do futuro enquanto me foco apenas no presente é impagável.

Meus votos de Feliz Ano Novo para todos vocês!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Sobre recomeços


 É fim de ano. Por que eu espero tanto por este fim? Algo dentro de mim permanece confiante de que tudo mudará no ano que vem. Agora eu vejo que nem me importo mais com o quê vai mudar contanto que algo mude.
 Meu coração está apertado esperando que alguma coisa aconteça, e esta agonia que me consome silenciosamente não me deixa, só me cobra. Me cobra por algo que eu nem sequer sei o que é. É alguma coisa comigo, alguma parte me falta. Estou presa em uma luta interna sem saber pelo o quê estou lutando.
 Crescer só é assustador quando se está sozinho. Ainda que cercada de pessoas não encontro paz ou companheirismo quando mais preciso. Gostaria de fugir, mas não posso. Odeio estes motivos injustificáveis que me fazem ficar e que me mantém neste estado constante de fingimento a respeito de quem eu realmente sou. Ninguém liga, mas eu ligo.
 Vivemos apenas uma vez e desprezamos esta única chance tentando impressionar os outros. Agradar é nosso prêmio de consolação? O que há de errado em ser feliz? Felicidade de verdade, não uma competição de egos e desejos que nunca são satisfeitos.
 É isso. Chega uma hora em que ficamos cansados de nossa própria futilidade. Neste momento não há para onde correr. Continuar na mesma parece ser uma sina.
 Parece que a salvação são rostos novos e lugares diferentes. Começar de novo é a maior tentação de todas. É mais fácil bloquear as lembranças ruins. Mas se fosse a solução não teríamos que começar de novo, não é?
 O lugar de antes já foi um novo lugar, os sorrisos do passado já nos tocaram em algum momento. O que me faz concluir tristemente que o novo não é a solução. E isso me leva mais uma vez a crer no fato de que não sei de nada. É como estar imersa em um mundo sem respostas, sendo constantemente ignorada por pessoas a quem tenho a "obrigação moral" de agradar, de uma forma ou de outra.
 Só preciso que me puxem de volta para a superfície, onde meus pulmões poderão respirar o ar limpo que minha alma almeja com tanto fervor. Que eu o faça antes que acabe presa para sempre neste mundo de aparências em que me meti. Quem sabe assim alguma coisa em minha vida se torne verdadeira.

sábado, 15 de dezembro de 2012

Um amigo para o fim do mundo


 O evento mais esperado do ano chegando e eu aqui com as unhas por fazer, o cabelo sem chapinha, de cara lavada e sem a menor pretensão ou possibilidade de conseguir um namorado pra assistir à uma maratona de "Friends" comigo.
 Sem problemas, mesmo. Eu poderia muito bem sobreviver por anos assistindo Ross Geller e seu jeito sedutor de nerd adulto sozinha. Mas o fim está por aí, esperando acabar de vez com as putices desse mundo. Não que eu esteja em um estado melancólico de pânico e ansiedade. Destino, faça o que tiver que ser feito!
 Eu só quero uma companhia para o fim, sabe? Um amigo louco e rico o bastante pra viajar comigo para todos os pontos turísticos dos meus sonhos. Paris, Monte Carlo, New York, London, baby! Atencioso o bastante para ouvir meus desabafos sobre tudo - desde meus relacionamentos fracassados até minha profunda decepção com o cenário musical atual (talvez o fim seja mesmo uma boa ideia).
 Ele não poderia me deixar pensar que tudo estava prestes a ser terminado, pelo contrário, seria aquele me incentivando a ligar o "foda-se" e fazer o que eu quero enquanto ainda houvesse tempo. E com certeza me acompanharia na hora de acabar com o carro de certas pessoas no meio da noite com um taco de beisebol, como nos filmes.
 Nos sentaríamos no capô de seu Impala 67 estacionado na praia deserta às 6 da manhã, tomando milkshake de chocolate e comendo batatas fritas enquanto escutávamos "Carry on my wayward son", nos sentindo ao menos uma vez na vida como parte da família Winchester.
 Tatuaríamos "Ao infinito e além" em nossos braços como uma afronta ao destino que nos aguardava e riríamos disso por horas, sem parar um minuto sequer para pensarmos no que perderíamos.
 E quando este pensamento começasse a nos assombrar, recordaríamos só os momentos bons, os maravilhosos, os excitantes e os inesquecíveis. Choraríamos abraçados quando começássemos a presenciar a catástrofe, e morreríamos sorrindo de frente um para o outro enquanto a música de Ray Lamontagne ecoava no auto-falante de meu celular.
 E você, o que faria com seu melhor amigo no fim do mundo?


 Hesmeraldino Gomes, que o fim só nos leve de volta ao começo com muito mais estilo. Te amo!

I'm a mess, I confess


 
A garota sorridente, aparentemente boazinha é muito mais do que isso. Ela é bem humorada, sabe usar da boa educação. Ela dá bons conselhos e sabe ser amiga pra todas as horas. Porém, mais do que isso, ela pode ser séria, passar horas sem dizer sequer uma palavra. Também pode ser respondona, briguenta, e até apelar sutilmente para o lado da maloqueiragem de vez em quando. Para ela, isso se chama 'd
efesa'. E sabe o que mais ela pode fazer? Sorrir enquanto chora por dentro, esconder sua dor de forma tão perfeita que ás vezes é como se ela não existisse.

 Ela tem um quê de realismo que a faz repelir certas ilusões, e uma paciência magnífica que não se aplica a atitudes escrotas. De seus lábios, a verdade pode sair de forma dolorosa, o que faz com que a chamem de 'grossa'. E seu coração, aparentemente "gelado" é, na verdade, reservado àqueles que a amam e a respeitam, assim mesmo, do jeitinho que ela é.
 A perfeição passa longe, o que é ligeiramente aliviante. Se fosse perfeita seria um porre, a pedra no seu sapato. A companhia de bar mais chata do mundo. É por isso que optou pela imperfeição, pelo título de 'palhaça', pela liberdade de expressar o que pensa, e de falar ou não. Afinal, a vida é curta demais para tentar agradar a uma parcela quase intolerável de pessoas que, na verdade, sequer conhecemos. Certo?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Aquelas palavras não ditas


 Eu estava ali dançando diante do mar, fugindo da maré aos pulos e escrevendo meu nome na areia como toda criança de 8 anos faz quando vai à praia. Eu me senti livre. Eu nem sabia mais o que significava "ter problemas". Tudo bem, eu sabia, só havia esquecido, e não estava ligando a mínima com o fato de ter que lembrar na manhã seguinte.
 Naquele momento era somente eu, o mar, a areia, Norah Jones tocando nos auto-falantes da festa na beirada da praia e...Você.
 Tinha que estar em todas, não é? Tudo o que eu fazia por dias era me divertir e fazer com que a sua lembrança fugisse da minha mente. Funcionava perfeitamente pra mim. Eu não ficava chateada quando não me mandava mensagens, eu não me sentia mediana porque você disse isso no meio de uma brincadeira e eu sequer lembrava o motivo de ter gostado tanto de você.
 Gostaria de culpar Norah Jones com sua melodia lenta de romance de verão, mas nunca permiti que nós tivéssemos uma trilha sonora ou algo assim. Eu me recusava a odiar qualquer música boa só por ela me fazer lembrar algo que já foi bom e que depois apenas feriu. Não que você tenha chegado ao estado do "ferir" - sorte a sua - só pra constar.
 Mas eu quis mesmo ter você ali me dando beijos no pescoço, observando o mar e fugindo da maré junto comigo. Eu quis dançar aquela música de amor de verão enquanto dava risada dos seus movimentos nada atraentes aos olhos das pessoas normais - e lembrar que então eu não devia mesmo ser normal.
 Quando voltei e caí na real, eu estava diante da minha vida rotineira aonde eu me divertia e vivia muito bem sem você e suas raras mensagens que faziam parecer que você sentia minha falta. E me recusei a lembrar os tais motivos que me faziam ver um alguém diferente em você. Porque não parecia justo comigo gostar de alguém que tinha o mesmo ponto defeituoso que eu tinha: o orgulho. Eu ainda aprendo dia após dia. Dar o braço a torcer quando se trata de sentimentos não têm sido inaceitável como costumava ser antes, é apenas moderado - o que já está de bom tamanho.
 E você aí sempre tão...Misterioso. Odiaria ter que sentir como se fosse ter um troço se não soubesse o que se passa pela sua cabeça. Odiaria depender deste sentimento e me prender à uma incógnita que não parece ter solução. Eu me odiei quando estava prestes a fazer isso, sei do que estou falando.
 Alguma coisa me puxou de volta. Sou eu e meu medo de me apegar andando juntos novamente. Hora ou outra é inevitável pensar no que poderíamos nos tornar juntos, mas meu coração deve ter aprendido aquela valiosa lição de não se apaixonar por alguém só para preencher as lacunas misteriosas que permanecem sem resposta.
 A resposta pode muito bem estar em outras direções. Precisei me desvincilhar de você para vivê-las. Não é tão poético quanto o que seríamos em minha cabeça, mas é real e satisfatório, ao invés de um jogo pra saber quem diz o que sente primeiro.


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Pelo direito à verdadeira identidade


 Passamos a vida toda sendo preparados para sermos aquilo que nossos pais planejaram: pessoas e profissionais ótimos em um futuro não muito distante. A carga jogada em nossos ombros durante toda uma vida é pesada, convenhamos. Acredito honestamente que precisamos deste peso, pois será ele que nos direcionará ao melhor caminho possível. Só que ás vezes o peso excede o tolerável e acabamos nos vendo presos em um mundo onde ser aquilo que desejamos não é mais possível. Ao contrário disso, parece errado. De repente o fator crucial de viver não é o de ser feliz, e sim o de agradar à uma parcela insuportável de pessoas. Pessoas estas movidas pela opinião alheia, conceitos arcaicos e visões de mundo limitadas.
 A dificuldade dos jovens em lidar com isso é tão grande que a única maneira de sair desta sinuca de bico é se rebelar. Os motivos podem ou não serem insignificantes, mas tudo nos leva ao motivo inicial: não temos permissão para sermos nós mesmos.
 No passado, a sociedade moldou tão detalhadamente o modelo de indivíduo aceitável que ficamos à mercê dos deveres que querem dominar particularidades de nossa personalidade, nos impondo absurdos que devem ser encarados como o certo e tentando nos impedir de desenvolver senso crítico para julgar aquilo que achamos correto ou não.
 E com isso, cada vez mais famílias são afastadas por sonhos não apoiados e ideias formadas sobre o comportamento que é aceitável. O que muitos não sabem é que a rebeldia é quase que na maior parte das vezes um grito de socorro - e não uma possessão demoníaca. Atura-se calado o bastante para sobreviver por alguns anos, mas o primeiro estouro torna-se épico devido às diversas mágoas guardadas por tanto tempo.
 São sentimentos enraizados tão fortemente que dificilmente vão embora. Influenciam de tal maneira que chegam a afetar a visão que temos de nós mesmos - muitas vezes de forma negativa. Basta um pequeno passo para instalar insegurança o bastante para atingir todas as áreas de nossa vida. Aprender a lidar com isso posteriormente é uma lição de vida sem precedentes, mas o caminho é de lutas árduas, derrotas frequentes e vitórias ocasionais - em uma destas, acabamos nos encontrando para sempre.
 Felizmente, algo em nosso subconsciente floresce a cada dia. Deve ser esperança, eu não sei. Em nossas veias corre o sangue de pessoas incapazes de renderem-se diante dos preconceitos, das ideias formadas e do "ideal". Eis aí uma batalha em que vale a pena entrar.
 Nosso legado começa agora. Lutemos por isso!


 Daniela Souza tornou-se infeliz em sua vida de disfarce ao entrar na briga pelo direito de ser quem é. Seu “eu” verdadeiro é feliz.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Os perigos de se apaixonar


 Quem nunca se apaixonou não sabe o que é dependência de atenção, de sentimento e de ansiedade. Mesmo sendo lindo, intrigante e excitante, estar in love pode muito bem ser uma cilada. Listei aqui alguns dos maiores perigos de apaixonar. Se vai ou não valer a pena, aí já é uma questão de perspectiva.

1. Liberdade mental é uma ilusão. Todos os seus pensamentos são automaticamente direcionados à tal pessoa.

2. Você está constantemente olhando para o celular esperando receber uma mensagem - e quer morrer quando é apenas a sua operadora te avisando para recarregar os créditos.

3. Sua vida gira em torno de canções românticas dos anos 80 que parecem fazer todo sentido - se passar a ouvir Belo, jogue-se da ponte.

4. Por algum motivo, postar trechos destas mesmas músicas tornou-se a razão de seu viver.

5. Quando você beija outra pessoa - por mais linda que ela possa ser - não é bom o bastante e você acaba pensando no quanto gosta daquela que não está por perto.

6. A única maneira de admitir isso pronunciando as palavras exatas: "Eu estou apaixonado" é se embebedando numa sexta à noite com seu melhor amigo.

7. Seu celular é um perigo quando você resolve encher a cara e está com raiva. Infelizmente ele ainda não consegue identificar quando você está prestes a mandar uma mensagem estúpida.

8. Ás vezes você começa a falar em baby talk. E é ridículo.

9. Seus amigos quase não te aguentam mais. 

10. Você cansa de toda a palhaçada, se afasta, conhece outras pessoas, e aí percebe que ainda prefere a companhia do maldito.



Daniela Souza não sabe nada de amor, não fala baby talk nem sob tortura e não admite sentimentos tão excessivos...Até cair na cilada de se apaixonar.



Tem alguém te sacaneando


 Vou te contar um segredo sobre a vida: ela está constantemente de sacanagem com você. Isso é um fato, não um pensamento pessimista. É tão verdade que a única maneira de aprendermos alguma coisa de verdade é quebrando a cara enquanto tentamos o novo.
 Este caminho de martírio é tão importante que nos impossibilita de ter uma vida fora dos perigos da vergonha alheia. Não haverão alguns momentos onde passaremos vexame pela falta de experiência, haverão vários momentos.
 Na lógica, se todo mundo passa por isso então todos deveriam compreender, guardar as risadas para si e investir muito na paciência. Sem chances. Depois que se passa pela fase difícil, aos olhos dos inexperientes, somos algo como "a sensação da festa". Nós zuamos, apontamos e damos risadas - além de "conselhos" disfarçados para não darmos muito na cara que só estamos querendo nos exibir. 
 É um ciclo vicioso aterrorizante que só se transforma numa comédia com o passar do tempo. Para mim é fácil olhar pra trás e dar risada de meus sombrios tempos de escola. Por algum motivo isto faz eu me sentir mais forte e experiente com as porradas da vida, como se o que viesse fosse lucro. Mas o que você não aprende na teoria é que nunca se é de fato forte o suficiente. Nunca há experiências o suficientes. Na verdade, o 'suficiente' não existe quando se trata de lições.
 Estamos nesta contínua onda de aprendizado em que os elogios e as palmatórias se revezam e temos que estar sempre estudando e praticando, não importam quantos ossos se quebrem ou quantas vezes nosso coração é capaz de ser partido. 
 Pra completar, somos obrigados a nos levantar, pois permanecer no chão é deprimente, enfadonho e uma tremenda perda de tempo. Mas é uma obrigação seguida por poucos, por estranho que pareça. Há quem se contente em permanecer ajoelhado. A vista dali não é ótima nem agradável, é regular. 
 Estou falando de levantar-se pra valer. De limpar os joelhos e os jeans surrados pelo asfalto, erguer a cabeça, respirar fundo e ter a certeza de que na próxima vez que cair fará o mesmo. 
 Toda essa trama só se desenrola porque, não importa o quanto a vida te sacaneie, o caminho até os nossos sonhos e objetivos estará sempre cercado de armadilhas. A questão é: o quão experientes podemos ser para nos safarmos de cada uma delas até chegar ao almejado destino?

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Para o coroa lá do pólo norte



 Querido Papai Noel, devo começar esta carta deixando bem claro alguns pontos muito importantes. Primeiramente, eu não acredito realmente em você. Minha mãe acabou com essa ilusão logo que passei a me entender por gente. Descobrir que quem na verdade comprava presentes era meu pai não foi lá uma coisa tão chocante - mas eu acreditava mesmo que a fada do dente pudesse fazer brotar dinheiro debaixo de meu travesseiro. Não que eu não já desconfiasse. O Papai Noel das festas de Natal do trabalho do meu pai não me enganava com aquelas canetas que mal funcionavam como presente.
 O segundo ponto é que eu não sou lá muito fã do Natal, apesar de ter um amor incondicional pelo clássico "Esqueceram de mim 2". Macaulay Culkin não me ensinou o verdadeiro significado da data, mas me fez ter paixão por New York. A cidade faz a ocasião parecer ter um real significado, mesmo depois de saber que dia 25 de dezembro é, na verdade, algo como o aniversário do deus Sol. Pois é, você não me engana!
 Mas dúvidas a respeito de sua existência - e do papel insignificante que você tem em minha vida - à parte, gostaria de tentar algo novo.
 Acredito ter sido uma boa garota este ano. Eu saí de minha zona de conforto uma dezena de vezes, fiz coisas que jamais pensei que conseguiria, assumi minha verdadeira identidade e não permiti que os outros conseguissem abalar quem eu sou com palavras cortantes e que não me acrescentam nada. Posso lhe dizer que passei da conturbada fase onde ficava procurando respostas a respeito de quem eu sou ou deveria ser, do que deveria fazer ou de como deveria me portar para que as pessoas gostassem de mim. Significa que saí da parte irritante da adolescência., onde eu estava sempre procurando ser aceita ao invés de tentar me aceitar.
 Mas mudanças como essas não vêm sem grandes consequências. É, seu Noel. Eu passei por belos perrengues! Eu não estava errada quando pensava que crescer era assustador. Mas a gente acaba percebendo que é um medo bom. Tem aquele friozinho na barriga e a ansiedade, sinais claros de que mudanças estão por vir. Para aturá-los quem nos apóia é a curiosidade. Quem em sã consciência consegue ficar sem o novo? E se o faz, consegue realmente ser feliz? Eu duvido.
 Admito que fiquei um pouco mais vaidosa do que o normal. Parar sempre que vejo meu reflexo apenas para conferir como estou talvez mostre meu lado mais narcisista, mas considerando que não me transformei em uma individualista severa ou coisa assim, até que não estou ruim, não é mesmo?
 Também aprendi lições extremamente importantes sobre relacionamentos. Eu passei a ter paixão pela comunicação, mas quando o assunto é 'gente' durmo sempre com um olho aberto. Não confio nas pessoas. Elas mentem, manipulam e magoam. Sei disso porque sou uma delas. Eu provavelmente terei que lidar com minha falta de confiança mais pra frente, mas por enquanto deixemos assim, neste claro estado de realidade que nos abate diariamente.
 Apesar de tudo, fui uma boa amiga. Gostaria de ter sido ótima, mas não consegui chegar lá. Não fui sensível, pelo contrário, fui bruta quando fingiam honestidade. Isso me tira do sério. Ao ser romântica quando tratava-se de alguém, me decepcionei de novo. Deve ser por isso que deixei o romantismo para os livros. Resolvi poupá-lo para quando valesse a pena.
 Ainda não valeu.
 Eu não cumpri muitas de minhas resoluções do ano passado - e também não ganhei o Iphone 4s que pedi - então estamos quites. Não vivi um grande amor, não levantei os braços como Rocky Balboa logo depois de subir correndo vários degraus, não acumulei 500 amigos no Facebook e não li um livro por semana como havia prometido.
 Ao invés disso, venho retirar as promessas. Elas me prendem, me limitam e me desanimam. Estou apostando no imprevisível. Me disseram que é uma boa.
 Então, não lhe peço nada e definitivamente não comprarei um ser de pelúcia que me lembra você - até porque já combinamos que você não é real. Mas escrevo essa carta para lhe agradecer. Apesar de ser obviamente um símbolo poderosíssimo do consumismo, você meio que alegra as pessoas. Pessoas alegres normalmente me deixam feliz também.
 Além do mais, está bem claro que toda aquela baboseira pregada por aqueles que lhe dão voz transforma as pessoas em seres mais benevolentes nessa época do ano. Uma farsa, eu sei, mas considerando o estado de espírito mesquinho que a raça humana têm se encontrado, com o senhor estamos é no lucro!

FELIZ NATAL!


domingo, 25 de novembro de 2012

Ego Machine



 Mais espertos, mais bonitos, mas cheios de si. O ego humano é ‘espetacular’ - ou pelo menos cria essa ilusão. Não há nada de errado em nos sentirmos a última cereja do bolo do universo, na verdade, é divertido. Pode não ser um belo exemplo, e nem construir o caráter, mas é divertido.
 Talvez o facebook seja o maior construtor de egos do mundo. Estamos sempre nos esforçando tanto para mostrar como somos felizes, importantes e descolados. Nós temos completa ciência de que ninguém realmente liga para o que fazemos, aonde imos ou com quem estamos namorando, a não ser que você seja um belo alvo de alguém - e isso pode aplicar-se tanto de forma positiva quanto negativa. 
 Viver de aparência não devia ser uma necessidade, mas nós gostamos de nos apegar à esse tipo de coisa, porque não importa o quanto estamos quebrados, vazios ou tristonhos por dentro, sempre haverá uma frase no face mostrando ao mundo que a vida é linda de tão divertida!
 Será a ignorância uma benção?

(Da série: "Coisas que escrevemos nos pedaços de rascunhos")

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

No limbo

 
 Costumava me prender aos estereótipos e tabus implantados em minha cabeça durante uma vida inteira. Recentemente venho me curando deste mal. Ele me tornava ingênua, medrosa e com ambições que só pareciam possíveis durante o sono. 
 Agora venho experimentando da curiosidade e da adrenalina de apostar todas as moedas apenas por diversão. Sou eu tentando ser feliz sem motivos exatos, respirando fundo como quem prendeu a respiração por vários minutos. Me parece que quando paro para pensar nisso - como neste exato momento - soa tudo bem complicado e utópico. Lembro dos problemas, me sinto estúpida pelas atitudes erradas que posso ter tomado ao longo do dia e pelas palavras mal colocadas nas frases. 
 Mas então vêm aqueles momentos incríveis em que os medos somem, as risadas permanecem, o coração fica a mil, onde a alegria é sentida em seu estado mais natural. E tudo parece tão simples.
 O problema são os momentos exagerados de reflexão. Fico aqui diante deste computador esperando me distrair e acabo o fazendo com meus próprios pensamentos. Quando dou por mim, estou dando atenção às minhas mais estúpidas teorias e agarrando-me aos meus mais antigos pavores. E isso por sua vez me leva a tomar atitudes um tanto detestáveis - coisa de gente neurótica - enquanto sigo numa busca implacável pela razão, que acabará não me servindo de nada.
 Este limbo onde me encontro - entre a razão e a felicidade - parece ser meio permanente. Mas é uma evolução, considerando que eu costumava estar sempre do lado da razão. Parecia mais certo, aconchegante e seguro, enquanto eu resistia bravamente ao sedutor chamado da felicidade. Ela devia estar bem disfarçada por ter me enganado de maneira tão convincente em todos estes anos. 
 Eu soube o que perdi no momento em que me senti finalmente livre. Tudo bem, é uma liberdade meio condicional, fruto de uma mudança interna gradativa, que exige uma paciência que está sendo adquirida sabe -se lá de onde! 
 O segredo está em aprender a conciliar razão e emoção. Quando dominamos essa arte, tudo parece mais leve, divertido e aturável, resultando no bom senso, tão subestimado e pouco utilizado em um período em que a solução da maior parte de nossos problemas parece estar concentrada nele.
 No debate entre razão e felicidade escolho este limbo, pois optar por apenas um deles parece a mais babaca das insanidades. Estou de mãos dadas com o melhor que os dois podem me oferecer.
 

domingo, 18 de novembro de 2012

Nine in the Afternoon



- Há quanto tempo está aí? – Perguntou Amy ao dar de cara com Ben olhando-a enquanto dormia.
- Uns dez minutos. – Respondeu ele.
- Isso é estranho. Principalmente porque não sou o que chamam de “bonita” ao acordar. – Disse sonolenta e cobrindo o rosto com a palma das mãos. Ben deu uma leve risada.
- Não seja boba. Você é linda.
- Considerando que já conseguiu me levar pra cama, vou supor que seu elogio faz parte do seu plano de garantir uma próxima. – Disse ela, agora se sentando e encostando-se à cabeceira da cama.
- Pode até ser. – Disse com um olhar pensativo. – Mas você é linda. Isso é um fato. Tem que lidar com isso.
 Ela deixou um sorriso escapar, mas logo se conteve. Observou o quarto, já iluminado pela manhã de domingo. Suas roupas estavam jogadas pelo chão, e lembrou-se instantaneamente de não deixar o lençol descobrir seus seios. Percebendo sua preocupação em mantê-los escondidos, Ben soltou um meio sorriso:
- Não está envergonhada, está?
- Claro que não. Só estou mantendo as “garotas” aquecidas. – Disse ela de forma bem humorada. Ele riu. Amy reparou que já ele já estava vestido, e então olhou para o relógio no criado-mudo. Ainda era cedo, e ela desejava dormir um pouco mais, o que não faria. Uma vez acordada, tinha que levantar.
- Pode dormir mais, se quiser. – Disse ele, como se lesse seus pensamentos.
- Não, obrigada. – A cabeça começou a latejar. “Aí vem a ressaca”, pensou, arrependendo-se de ter exagerado no vinho noite passada.
- Gostei de ontem à noite. – Disse ele.
- Fala da minha performance ou da maneira atirada da qual ignorei minha regra dos 8 encontros?
- Da perfomance, claro. Mas prefiro o termo “ousada”, ao invés do “atirada”.
- Que seja este o termo, então!
- Gosto de ousadia. Além do mais, você faz mais o tipo de garota que quebra regras, mesmo.
- Não as minhas. São como princípios. Aparentemente eles não resistiram a duas taças de vinho e uma rodada de tequila. – Disse ela, enquanto vasculhava por debaixo dos lençóis para ver se conseguia achar seu sutiã. – Ele sorriu, levantou e abaixou-se para pegar algo no chão. Estendeu o sutiã preto de rendas na direção dela, que se enrubesceu no mesmo instante.
- De qualquer forma, era nosso quinto encontro. O que são três a mais?
- Simples. Os primeiros três encontros definem o nível de intimidade intelectual, os próximos três serão a prova de que a ligação intelectual entre nós é a fonte da química física que pode, e possivelmente deverá acontecer entre o sétimo e oitavo encontro.
- Não me parece muito simples. Você tem um manual de como fisgar os caras aí na cabeça?
- É mais um manual de como fisgar um namorado.
- Hum. E ter essa conversa não quebra o protocolo desse manual?
- Não faz diferença. Você não é bem um namorado em potencial.
- Eu deveria me sentir ofendido, não é? – Perguntou ele bem humorado. Ela levantou os ombros e tirou o lençol assim que conseguiu vestir o sutiã. – Certo, então sua lógica supõe que você começaria as preliminares no sétimo encontro e esperava que eu as terminasse no oitavo?
- Não, isso seria trapaça.
- Da sua parte.
- Exato. Eu só te daria um gostinho do paraíso. – Ele sorriu um pouco desacreditado.
- Isso realmente funciona pra você?
- Talvez. – Ele a olhou curioso – É uma regra meio nova.
- É, acho que pode culpar a bebida por isso.
- Não exatamente.
- Como assim? – Perguntou ele, que estava sentado no canto da cama.
- Eu não posso te dizer.
- Isso revelaria um segredo? – Ela permaneceu calada. – Eu não sou um namorado em potencial, lembra?
 Ele suspirou diante do silêncio de Amy, e passaram alguns instantes sem dizer nada.
- Eu tenho uma teoria. – Disse Ben.
- Vamos ouvi-la.
- A coisa da “intimidade intelectual” – disse ele fazendo aspas com os dedos – aconteceu no primeiro encontro, quando nos conhecemos na cafeteria. Você provavelmente ficou fascinada com meu papo sobre Shakespeare. – Ela revirou os olhos. – Nossa conversa de três horas deve ter valido pelos próximos três encontros. A química “física” aconteceu no segundo e continuou no terceiro e no quarto. O que nos levou ao quinto. Que, admito, talvez não tivesse acontecido se não tivéssemos bebido além da conta. O fato é: você sofreu do mal de precipitação.
- O que faz de você um “peguete” em potencial.
- Significa que não temos uma relação madura o bastante para eu me tornar seu namorado?
- Exatamente.
- Então, partindo do princípio de que é preciso ser imaturo para se apaixonar, não estaríamos no caminho certo?
- De quem é esse princípio?
- Meu. - Ben sorriu da forma charmosa como sempre o fazia, deixando uma covinha no canto da boca aparecer.
 - A sua lógica soa melhor do que a minha. – Amy admitiu. – Mas não funciona. Não estamos apaixonados.
- Ainda somos imaturos para admitir isso. – Amy calou-se, olhou para as próprias mãos por alguns segundos e logo voltou a olhar para Ben.
- Por mim tudo bem, então. Não gosto de rotular meus sentimentos, mesmo. - Disse ela, despertando outro sorriso de covinhas charmosas nele.


"Porque são nove da tarde
Seus olhos são do tamanho da lua
Você é boa porque você pode então faça
Estamos nos sentindo tão bem, do jeito que nós fazemos"

Trilha sonora: Nine in the Afternoon - Panic! At the Disco

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A exceção no "Gostar"


 Quando estou com alguém sempre tenho a sensação de que não sou exatamente o que a pessoa está procurando. Na verdade, não paro pra pensar nas características que esse "ser ideal" do sujeito deve ter. Um pouco talvez pelo meu orgulho - me recusar a mudar algo em mim para agradar os outros. Por outro lado, mesmo que eu passe a tentar ser a pessoa ideal de fulano estarei sempre convicta de que durante a jornada até a "terra das namoradas perfeitas" eu estarei sempre pisando em falso. É por isso que não acredito tanto nessa história de se esforçar para conseguir ocupar o cargo de atual namorada de alguém.
 Quando estamos muito focados em ter um relacionamento sério nunca o conseguimos, e se o conseguimos é porque acabou vindo de maneira um tanto forçada. Não sei se isso é a sina de todo aquariano, mas um namoro forçado é chato, daqueles que acabam caindo na rotina. É como se aquilo tudo fosse uma obrigação. Obrigação de dar risada, de beijar, de mudar o status de relacionamento no Facebook e de mostrar pra todo mundo que você está feliz da vida - o que pode muito bem ser um disfarce.
 Hoje me deparei nessa cilada de ficar pensando no que seria ter um namorado. Parece uma daquelas incógnitas sem fim. Então voltei à primeira frase deste texto para tentar desvendar meu problema com os relacionamentos: "Quando estou com alguém...".
 Não sou o tipo de pessoa que se entrega pra valer e dificilmente digo o que sinto. Aliás, gostar de alguém é um desafio. Sou exigente de uma forma até mesmo chata. Mentira. Meus requisitos são simples. Gosto de pessoas carinhosas e que conseguem me fazer rir de forma natural. É possível que minha definição de "namorado" se baseie nisso. 
 Porém, ainda tem o ingrediente secreto que complementa o sujeito e me faz gostar dele, mas gostar mesmo. Só que eu não sei o que diabos é esse ingrediente! A coisa é tão natural e rara que fica difícil exigi-lo.
 Então, fico pensando se em algum momento da vida vou ser o ingrediente secreto de alguém. Tão secreto a ponto de ser uma descoberta. Tento evitar esses devaneios de romantismo ao mesmo tempo em que desejo conhecer uma pessoa e pensar: "Uau, então era disso que eu precisava?". E também quero despertar isso em alguém, não só pra amaciar meu ego e nem ser somente a amiga com uma paixão platônica.
 Eu quero ser a mulher, a amiga, o alguém, o ingrediente secreto. 
 Steve Jobs dizia que ninguém sabe o que quer até que lhe seja apresentado. Talvez seja por isso que quando conseguimos aquilo que almejamos após tanto planejamento não ficamos completamente satisfeitos. A satisfação pode muito bem estar escondida no improvável. 
 A questão é: quando isso vai evoluir e bater na minha porta como o improvável que acabou acontecendo?




Daniela Souza é aquariana e cabeça dura que só admite estar apaixonada depois de algumas boas doses de álcool. 


terça-feira, 13 de novembro de 2012

Conveniência

- Você sabe que ele é um imbecil, não é? - Perguntou Tyler enquanto observava o sol nascer, com os cotovelos apoiados sob a grade de proteção do parque.
  Annie ajeitou-se, e enquanto lutava contra as pálpebras pesadas limitou-se a responder:
- Sei.
- Ele só quer te usar.
- Sem problemas. Eu também só quero usá-lo.
- Então não há vestígios de sentimentos por ele em você?
- Não. Nenhum.
- Não está apaixonada?
- Não.
- Você ao menos gosta dele?
- Eu não o suporto. Ele é brigão, exibido e conta piadas terríveis.
- Então por que estão juntos?
- Não estamos "juntos".
- Então como chama isso o que vocês têm?
- Conveniência.
 Tyler sorriu abismado e passou a olhá-la, procurando vestígios de dúvidas por trás de tanta segurança.
- E o que é que tanto te atrai nele?
- Eu não sei. - Disse ela levantando os ombros. - Talvez seja o sorriso com covinhas, ou as camisetas com frases engraçadas que ele usa.
- Só?
- E o que mais poderia ser?
- Eu não sei. Mulheres se atraem apenas com covinhas e camisetas engraçadas? - Ela suspirou enquanto esforçava-se para achar uma característica no sujeito que pudesse agradá-la.
- Ele tem senso de humor. - Disse ela.
- Mas disse que ele faz piadas horríveis.
- Bem, ele não é nenhum Chris Rock da vida, não é?
- Existe algo na personalidade dele que possa lhe atrair, além do senso de humor?
- Dificilmente.
- Ainda não entendo porque está com ele. Vai acabar sendo magoada.
- Está atrasado. Eu já fui.
- O que aconteceu?
- Eu mandava mensagens e ele demorava horas pra responder. Eu desejava que ele me convidasse pra sair e ele estava sempre arranjando desculpas. Ele me iludia com palavras floreadas e eu acreditava todas as vezes. E antes de perceber que só era conveniente pra ele, me apeguei.
- E o que você fez?
- Roubei seus segredos, descobri suas inseguranças. Minha carência era o que alimentava o seu ego. Parei com as mensagens, saía com meus amigos, conhecia outros caras e acabei percebendo que sou boa demais pra ele. Minha indiferença cutucou seu orgulho e ele voltou, diferente, atencioso, enquanto eu o aceitava ainda indiferente, ardente mas fria, doce porém amarga. Agora é simplesmente divertido.
- Ser como ele?
- Não. Dar o troco.



segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Sadness

 O seu silêncio é cortante. Você não conversa, não responde, não gesticula. Apenas mantém o olhar na TV, presta atenção ao caos e me deixa em segundo plano novamente. Depois do silêncio constrangedor e da espera quase agonizante por uma resposta, você solta palavras curtas que não dizem nada, e a sua falta de atenção me faz sair.
  Saio com o coração na mão, a cabeça transbordando de raiva e a língua afiada para dizer tudo o que penso naquele momento, mas não o faço porque sei que iria doer. Seria egoísta de minha parte, e logo depois eu seria consumida pela catastrófica onda de arrependimento que tiraria meu sono. E após lutar contra o meu orgulho, quando decidiria me desculpar, teria que tolerar mais uma vez o seu silêncio.
  Me pergunto se sou culpada por tamanha distância entre nós. Será que foi a falta do afeto exagerado que os outros transmitem a seus filhos? Por anos não o cumprimentei com beijos no rosto, não obtive o hábito de abraçar-lhe o tempo todo, não conversei sobre o que sentia. A única coisa que fiz foi agradecer pelos presentes de aniversário, me desculpar por coisas que havia feito de errado e lhe abraçar timidamente nas datas especiais.
  Posso ser uma pessoa horrível por isso. Tive mais intimidade com estranhos do que com você durante toda a vida. Agora fico aqui com uma pontinha tímida de inveja da relação dos outros, desejando secretamente ser amorosa o bastante para compensar os anos de frieza, os risos perdidos e as palavras não ditas. Mas parece meio tarde para algumas coisas. Herdei alguns traços de frieza e preciso conviver com aqueles que são irreparáveis.
  Com isso aprendi como não quero ser no futuro. Me esforcei para ser o mais carismática e amorosa possível, não usando o sofrimento que vivi sozinha no passado como desculpa. E continuo me esforçando para dialogar, até mesmo agora que meu coração não passa de um fiapo de remendas mal feitas. Uma esperança que pode muito bem ser vã.
  Enquanto isso, fico aqui esperando que essa tal esperança nunca se vá. Seria como mergulhar num abismo de tristeza. Essas palavras me partem o coração, e o único motivo de dizê-las aqui é por saber que de fato nunca conseguirei dizer olhando em seus olhos. Parece que não fui criada para demonstrar tanto sentimento. Isso precisarei aprender por conta própria. 



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A página em branco




  A obsessão de todo escritor é uma pagina em branco do Word. Depois de checar todas as novidades na rede tudo o que nos resta é abri-la. É como um aviso para o cérebro: “Ei, é hora de produzir! Comece!”.
  Nessa mentalidade, podemos passar vários minutos – o que parecem horas – diante da branquidão daquela folha, apenas esperando que algo seja escrito. Pode ser qualquer coisa, uma frase, uma receita, uma história. Tudo o que precisamos é preenchê-la, por quê? Porque dá gosto fazer isso.
  Estamos comprometidos com nossas almas a escrever coisas realmente significantes. A estória que almejamos escrever é nossa paixão platônica até que seja terminada. Por ser uma paixão, não esperamos nada em troca. Queremos muito que vejam e compreendam nossas palavras, porque superficialmente adoramos os elogios, as críticas, os xingamentos. Adoramos a atenção que é dada a elas.
  Porém, acontece também que vistas ou não, aquelas palavras enchem o espaço vazio que existe em cada um de nós – seja ele pequeno ou grande. É a terapia dos desconsolados, dos duros, dos românticos e dos entediados. Nos mantém a salvo da insanidade apesar de nos sentirmos tentados a experimentá-la, mas nos deixa saborear o gosto das loucuras um pouquinho de cada vez pra não ficarmos viciados em sua doçura ou acabarmos caindo nos braços da amargura.
   A página em branco também é uma tortura. Quando somos invadidos pelo medo da falta de inspiração crônica pensamos em como as coisas poderiam ser diferentes. Dentro de nós tudo seria mais quieto, preto e branco e áspero. É desesperador do ponto de vista literário.
   Nossa missão é tocar os corações, mas só fazemos isso quando o primeiro a ser tocado é o nosso. Por isso a pressão não ajuda. Muito pelo contrário. Ela tira a espontaneidade que transforma um amontoado de frases em um belo texto. Deixa tudo sem sal, sem gostinho de quero mais.
   O que movem as palavras que tocam no coração das pessoas – que fazem chorar, rir e se arrepiar – é aquela paixão avassaladora. Como um casal de amantes se esquece do mundo em seus momentos de prazer, nos refugiamos no deleite de criar e inspirar.
   E tudo porque amamos o que fazemos.

Daniela Souza não teve lapsos momentâneos de falta de criatividade ao redigir este texto, ao som de "Love me do" - The Beatles.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

REHAB para as boazinhas


 Cultivar o ódio não é um de meus passatempos favoritos. Assim como a intriga, gosto de mantê-lo longe de mim, o bastante para me afastar também de qualquer possível desejo de vingança. Por um lado, gosto desse meu lado pacífico. Sabe como é. Faz bem pra alma, evita o stress e quem sabe até umas ruguinhas. Só que evitá-lo demais me fez evitar também o confronto, e isso me tornou insuportavelmente "boazinha".
  Não é nada legal ser a boazinha da história. Vai por mim, são 19 anos de experiência. A boazinha é aquela que sempre se fode, e o único consolo que tem é um maldito tapinha nas costas.
  Nós, boazinhas, não gostamos de ser assim. Internamente, sonhamos em nos tornar mulheres fatais e quando começamos a caminhar em direção à esse caminho acabamos causando mais estragos do que aquelas que já acreditam ser assim. Possivelmente isso é motivado pela falta de experiência, de tato para lidar com as situações. Ás vezes, indo com muita sede ao pote acabamos sendo terrivelmente brutas como se necessitássemos disso para compensar os anos de abuso de nossa condição de boas samaritanas. É normal logo depois sentirmos a consciência pesada e passarmos horas a fio refletindo a respeito da humildade recíproca que deve haver entre homens e mulheres.
  Depois de um tempo deixamos isso de lado. A vida começa a nos dar mais do que tapinhas nas costas e passa a nos fazer ter que lidar com os pés na bunda, os tapas na cara violentos - de uma forma figurativa, é claro - e as palavras cortantes. Nosso senso para sacar mentiras  fica divinamente apurado e acabamos identificando-as mais facilmente do que antes, quando tudo soava como música erudita aos nossos ouvidos.   Algumas não aguentam tamanha pressão e cedem à brutalidade. Tornam-se feministas natas, donas da verdade, manipuladoras inescrupulosas e destruidoras de corações.
  Eu, querido leitor, fiquei no meio disso. Minha personalidade pacífica continua insistindo em fazer parte de mim, o que não é de todo ruim. Gosto da sensação de ter sentimentos e conseguir respeitar o das outras pessoas. É como conseguir manter o lado que vale a pena de nossa humanidade - a sua essência. Por outro lado, adquiri o tal sensor de mentiras, aprendi certos truques de manipulação, identifiquei - com muita dificuldade - aquilo que merece ser priorizado e virei mestre na arte de soltar um belo sorriso quando esperam de mim uma careta.
  Foram os tapas na cara, as quedas livres diante das decepções e as rasteiras dadas no decorrer de uma vida inteira que foram me ensinando a sobreviver na selva de pedra que são as relações humanas. Passou a ser óbvio que só aprendemos a ser fortes quando não temos outra escolha diante das adversidades. A gente acaba deixando o instinto falar mais alto, e ele nem sempre pode mostrar ser o modelo de pessoa perfeita que esperam de nós.
  Quando abri mão dos tapinhas nas costas e do posto de boazinha acabei me descobrindo. Aquela pessoa que eu conhecia apenas internamente não era uma ilusão, era eu. Ela só precisava de um pequeno - no caso, grande - impulso para sair por aí mudando a vida das pessoas através de suas palavras e atitudes.
  Agora, mais uma vez percebo de uma forma dolorosa para o ego que caí novamente no conto do vigário. Ironicamente, é justamente esse tipo de decepção que me faz ir pra frente, e me ensina uma nova lição: Se pegar a estrada que te levará a ser uma mulher fatal, nunca olhe pra trás. Apesar de parecer agradável, aquela garota boazinha lá atrás já foi o seu pior pesadelo.

domingo, 4 de novembro de 2012

Abaixo aos falsos feministas!


 Ultimamente tenho tido a impressão de que os homens ficam cada vez mais preguiçosos. Estão barganhando pouco e esperando receber uma bela fatia do mercado em troca. Atribuo boa parte dessa culpa ao feminismo levado ao pé da letra.
 O feminismo para mim só é levado em conta a partir do momento em que trata de maneira igualitária os direitos óbvios da mulher de trabalhar, receber segundo o valor de seu trabalho e não de seu sexo, ser tratada com respeito e não ser alvo dos velhos clichês que nos deixam tão putas - "lugar de mulher é no fogão", "mulher no volante, perigo constante" e por aí vai.
 Mas está bem claro que muitos homens têm se aproveitado desses "novos tempos" e levado isso também para as relações afetivas. O problema é que por isso as relações entre homens e mulheres não tem sido como eram antes. Os homens têm se acomodado nesse estado de "aceitação feminista" e têm deixado de lado as necessidades das mulheres. Eventualmente bons homens cruzam nossas vidas e nos fazem enxergar a essência do romantismo, de uma forma mais realista, mas ainda sim romântica.
 Não é que nós, mulheres, estejamos sempre esperando pelo príncipe encantado. Este é um pensamento equivocado de muitos homens que, por medo da pressão de não serem o tal "príncipe", decidem arriscar-se sendo os ogros. Não, homens. A maioria de nós percebemos que ser Cinderela é o mesmo que ser a "mulher perfeita" dos séculos passados: um rostinho bonito em um corpinho submisso.
 O que nós queremos é gentileza. Um homem que sabe verdadeiramente agradar uma mulher é aquele que encontra felicidade na relação a dois, pois a medida em que estamos sendo agradadas, temos vontade - e não obrigação - de agradar.
 Mas a praga dos falsos "feministas" se espalhou rápido demais. Eles são como os seres ignorantes que Sócrates nos ensinou a reconhecer: pensam que entendem as mulheres, mas não entendem mesmo! E é provável que não saibam disso. Nisso, minhas queridas leitoras, podemos nos incluir como culpadas.
 A partir do momento em que permitimos que um homem nos trate como meros pedaços de carne estamos assinando um atestado de que o respeito e o romantismo que tanto queremos está morto. Não podemos deixar uma baixa autoestima refletir em nossos relacionamentos e causar danos quase irreversíveis na imagem que os homens terão de nós. Antes de tudo é preciso nos agarrarmos ao mais antigo e sábio dos clichês: "Amar a si mesma". 
 Uma mulher que ama a si mesma mostra em todas as suas ações que merece um tratamento digno de rainha -  é aquele tipo de mulher que você consciente ou inconscientemente sempre sonhou, leitor. 
 O que uma rainha deseja está bem longe de ser um príncipe. Não é um moderninho que não sabe priorizar o alto valor que ela tem. E aqueles tipinhos tirados dos contos de fadas então, não quer passar nem perto. Ela quer um homem de verdade. Ele pode até não abrir a porta do carro ou não lembrar a data do aniversário de namoro, mas a respeita, é protetor, sensato e sabe agradá-la nas horas certas. Ele não é perfeito - pois a perfeição entedia - mas sim real. 
 Não há nada mais sexy do que isso.


 Daniela Souza deixou de lado a vontade de ser princesa e optou por ser um mulherão.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Para desencargo de Facebook


O Facebook dominou a minha vida.
Essa não é uma afirmação muito fácil de se fazer, considerando todas as vezes que a neguei quando meus amigos a jogavam na minha cara. "Eu não estou me exibindo" ou "Só gosto de socializar" eram desculpas frequentes. Quem eu estava enganando? É claro que eu estava me exibindo. Eu me igualei às outras bilhões de pessoas ao redor do mundo que acordam todos os dias e ligam os computadores em busca de atualizações enquanto torcem para que estas não sejam apenas convites para algum tipo de jogo que eu não jogaria por pura preguiça.
 Fiquei tão viciada em minha "realidade" virtual na rede que deixei a vida real virar uma bagunça. Tornou-se um vício mostrar pra todo mundo o que é que eu pensava e acreditar que um "Curtir" significava que as pessoas estavam finalmente me escutando - ou lendo, que seja. Elas não estavam. Elas sequer leem o restante de meus posts neste blog, se contentam com o trecho que representa apenas 40% das ideias do tal texto.
 Como se não bastasse, "sem querer querendo" eu soltava indiretas, a forma mais patética e infantil de se dizer o que sente sem realmente dizer achando que está sendo ouvida, quando na verdade está expondo deliberadamente sua tamanha carência emocional que não precisava ser alvo de chacota do mundo.
 E hoje, como um balde de água fria em minha cabeça eu estou aqui me perguntando qual foi o momento exato em que me deixei levar pela ideia de que construir uma "vida perfeita" fraudulenta em minha timeline faria de mim uma pessoa legal e descolada. E se fizesse, qual seria a diferença se não conseguisse ser assim na prática?
 Não é que eu não era aquilo que postava, mas eu tinha momentos de exagero. Virou uma estúpida necessidade mostrar que eu li, escrevi ou curti algo que me faria parecer "culta". Pareceu um disfarce disfarçado. Quer dizer, aquela realmente era eu lendo, escrevendo e curtindo as coisas que me definiam como pessoa, mas o modo forçado como eu jogava essa informação na cara das pessoas todas as vezes fazia com que parecesse que eu estava apenas inventando ser alguém que eu não sou, quando na verdade eu não estava.
 Eu era um livro aberto. Senti que faltava aquela dose sexy e curiosa de mistério, aquele "quê" de não estar por dentro das modinhas e a naturalidade de despertar a atenção dos outros sem que haja muito esforço. Me faltava ser eu de novo.
 E é por isso que neste exato momento estou - com muito pesar e esperança - desativando minha conta do Facebook. Ou de uma maneira mais clichê e dramática, estou me desagregando da manada do modismo e optando pela vida solitária - ou utilitária - na rede. Encarar isso como um desafio só me faria cair em tentação e mais cedo ou mais tarde eu acabaria voltando.
 Será um novo hábito, e eu vou acabar reaprendendo que viver de verdade é melhor do que se iludir com as redes sociais.



 Daniela Souza cansou de seu alter ego "Padalecki". Agora ela é só a Daniela Gomes de Souza.

domingo, 28 de outubro de 2012

Aqui jaz o "Tuntz, tuntz, tuntz"


 Cheguei prematuramente à fase do cansaço da "velha juventude clichê" - foi o que pensei ao sentar no banco de trás do carro de Bruna carregando o salto alto nas mãos. Não é difícil chegar à tal conclusão quando o que sente no final da balada não é bem aquele sentimento de excitação depois do que deveria ter sido um evento "super divertido, yupii!"
 Não que eu sempre tenha sido fã de baladas. Comecei a experimentar esse tipo de diversão ano passado, quando arrastada para uma delas me vi achando o som do cavaquinho não apenas tolerável - o que já seria demais para alguém que dizia detestar todo tipo de música que não estivesse em meu seletivo grupo de gostos musicais - mas também divertido. A partir daquele momento eu não estava tolerando um pagode, eu estava curtindo um pagode. 
 Foi interessante. Passei a abrir minha cabeça para outros tipos de músicas, mas consegui manter o bom gosto. É uma coisa intrínseca à mim, que sempre esteve atrelada à trajetória que me fez ser quem eu sou - tenho paixão em adicionar trilhas sonoras à minha vida, continuo achando que vivo num filme. 
 O problema - ou a benção - é quando somem todas as vontades que antes te levavam a passar horas se arrumando para conseguir que estranhos te olhassem e amaciassem seu ego enquanto você dançava ao som de alguma música escrota sem estar nem aí para o quanto ridícula sua dança parecesse - o álcool acaba ajudando. 
 É como o abrir os olhos para a realidade. É gente demais tumultuada, suando e cheirando a bebida e cigarros - é quase como pagar um preço absurdo para ter a mesma sensação de andar de transporte público. Só que é mil vezes pior, porque como se não bastasse ser empurrado para todas as direções e derramarem cerveja em seus sapatos você ainda tem que lidar com o sono, os caras chatos que realmente acreditam que "as minas piram quando chegam na balada fazendo rodinha com baldinho de cachaça", a maldita dor no pé e a culpa na consciência por ter escolhido por livre e espontânea vontade se torturar com o maldito sapato só porque é lindo.
 Eu devia ter encarado minha vontade de sentar logo que cheguei na balada como um sinal. Aquilo não era pra mim. A minha praia é conversar, rir, dançar em um espaço razoavelmente aceitável e não ser esmagada por dezenas de pessoas, ou observar cenas depreciativas de gente que se convenceu de que aquilo é diversão. 
 Sou mais fã de um sorriso, de piadas ruins que se tornam engraçadas entre amigos, das tentativas de aprender forró universitário com aquele colega meio sem noção. Eu não perdi minha vontade de ser jovem, só abandonei os clichês que os iludem. Encher a cara, pegar todos, fumar...Honestamente, dispenso. No final das contas sei o que eu sou. Sou old fashion.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Vitrine das possibilidades

A vitrine está bem iluminada. Ali está um belo carro: modelo 2013, vermelho reluzente com designe atrativo e bancos de couro. Ali está você, sentada no ônibus enquanto alimenta um desejo repentino de comprar o tal carro. Algo na maneira como a loja o ilumina, ou a iluminação da própria loja, desperta em você uma nova perspectiva.
 Até você perceber que não é o carro, são as propostas que ele traz. E não estou falando de atrair pessoas do sexo oposto com devaneios exagerados a respeito da quantidade de gente que alguém consegue ‘pegar’ por ter um carro. Aquele carro bonito com cheiro de novo e bancos de couro confortáveis representa alguma coisa. É como um convite à liberdade, talvez pelo fato de a imagem atrativa de estar a 160 km/h numa estrada deserta com o vento batendo no cabelo ser inevitável. 
 Ter aquele carro seria inaugurar uma nova fase na vida. Significa pra você que no momento em que o dirigisse pela primeira vez depois da burocracia toda de compra e venda você estaria financeiramente estável. Mas não só isso. Para fazer uma compra como aquela obviamente teria de haver um controle sob as finanças, mas também sob as emoções. Isso porque no momento em que decidiu comprar o carro tudo pareceria se encaixar perfeitamente. Ou seja, sua vida estaria indo de vento em polpa!
 Os setores que antes pareciam uma repartição mal administrada finalmente estariam em perfeita harmonia. Aquela história de que uma parte de sua vida indo bem significava que outra parte ia mal se tornara mito. Não era bem um estado de perfeição, ou sequer sorte. Era controle sob a vida afetiva, profissional, financeira e espiritual.
 As coisas não estariam simplesmente dando certo. Os problemas não sumiriam do nada. O colega do trabalho continuava tentando te passar uma rasteira, as contas continuariam chegando e as taxas aumentando, a ex de seu namorado ainda insistia em manter contato, ou vai ver você sequer tinha um namorado! Apesar de tudo, havia um esforço para que tudo ficasse bem. Sendo assim, as coisas estavam arduamente dando certo.
 O carro era só um detalhe. O brilho no seu olhar ao vê-lo era um mero reflexo dos seus sonhos implorando para que você fosse à luta. Era o despertar de algo indicando que a verdadeira felicidade está na conquista. Aliás, nas infindáveis conquistas.
 O ônibus avança ao abrir o sinal, e observando a vitrine de longe há uma decisão já tomada em seu consciente: atravessar a estrada da vida sem pegar atalhos. Passar pelos espinhos, ser atingido pelos galhos, constranger-se eventualmente, amar loucamente. Levar pés na bunda e respostas grosseiras. Defender-se, lutar pelos próprios ideais, correr atrás dos sonhos, superar os absurdos, conhecer a realidade sem conformar-se com tudo. E fazer tudo isso a pé, de bicicleta, avião, helicóptero ou até mesmo de patinete.
 Literalmente falando, o carro só deixaria a cena mais estilosa. O que já é por si só uma boa motivação para o pontapé inicial: mudar de vida.





Daniela Souza quis comprar o tal carro, até se dar conta de que queria mesmo era mudar de vida.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Hãn?!




Hora ou outra sou atingida pelo que gosto de chamar de “imbecilidade”. Acredite, é uma merda! Posso resumir esse sentimento que toma conta de minhas ações de uma maneira bem simples: basicamente sou eu ouvindo meu coração e ignorando os fatos.
 Os fatos, isso mesmo. Meus amigos, companheiros de vida e de cerveja – a bebedeira me deixa inspirada, mas permanece sempre atrelada a eles.
 Eu acabo me dando ao luxo de “tentar algo novo”, ignorando a realidade que me fez não tentar isso antes: nunca deu certo. Mas o pior não é tentar, afinal como já dizia Joanna Field: “É fraco e depreciativo continuar querendo coisas e não tentar consegui-las”.
 O orgulho de correr o risco já está aqui preenchendo um espaço até que um tanto satisfatório em meu ego – detestaria permanecer com a dúvida de como teria sido caso não tivesse agido fora de meus padrões normais de consciência. Mas ao mesmo tempo em que isso me transforma em uma pessoa diferente com toda essa coisa de mudança de hábitos e maturidade em desenvolvimento por causa dos tais riscos que tenho ousado cometer, também acabam me envolvendo numa estúpida teia de sentimentos que não fazem NENHUM sentido. Ou até fazem, o que é bem pior. É quando saio de minha adorável zona de conforto.
 Lá estava eu quietinha, não conformada, apenas desejando uma coisinha a mais que fizesse meus dias serem razoavelmente diferentes. Era pedir demais? Bem, acho que sim. Essa “coisinha” quando vêm nunca é uma coisinha de fato, é uma puta “coisona”! Daquele tipo que ferra a sua cabeça, atenua sua bipolaridade e te deixa mais estúpido devido às altas expectativas que são criadas dentro de seu subconsciente sem o seu consentimento. De repente já está tudo ali, detalhadamente planejado para te fazer sorrir como boba e logo depois fazê-la cair feio da nuvem de babaquice que te levou aos céus tão facilmente nos momentos divertidos. E tudo porque em algum momento sua natureza absurdamente realista – caso você seja como eu – que te abandonou por um tempo volta à tona.
 Eu nem sabia que era possível ferrar ainda mais minha cabeça. Agora eu fico aqui com estes estúpidos sentimentos tentadores numa luta contra a razão, que costumava predominar mais do que essas babaquices que fazem as pessoas permanecerem num estado inconsciente no que parece ser uma espécie de viagem alucinógena. E não faço ideia do que fazer.
 Acho que está se tornando um vício. Me encontro nesse dilema entre abrir mão e voltar ao ponto inicial de minha zona de conforto, ou continuar arriscando mesmo com todas as chances parecendo apontar para um caminho desastroso onde eu provavelmente acabo magoada – uma perda de tempo que não quero experimentar.
 O foda é ainda ter que considerar que isso talvez me faça crescer como pessoa.
 Mas não estou ligando muito para esse tipo de sermão. São clichês até mesmo pra mim. Vou deixá-los para meu próximo romance, onde esse tipo de coisa parece ser mais valorizado, enquanto aperto a tecla do “foda-se”. Se partir para o desastre basta lembrar que antes as coisas já foram bem piores.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

"A" aula



 Era noite de segunda-feira. Decidi que aquela seria minha semana "rebelde". Faltei ao curso de inglês para ir à academia queimar as calorias a mais causadas por duas deliciosas trufas que me enchiam de culpa. A rebeldia repentina despertou o desejo de parecer descolada, então fui malhar com uma camiseta dos Ramones.
 Sem grandes novidades, a noite corria bem. A endorfina liberada atraía o bom humor e a curiosidade em tentar coisas novas. É, a maldita curiosidade de tentar coisas novas! O bom humor foi minha perdição e acabei deixando-me ser levada pela tentação de participar da aula de sertanejo. É provável que a endorfina tenha influenciado uma parte importante de meu cérebro, aquela que servia para me recordar o quão desajeitada sou na arte da dança. Foquei minha neura na esquisita ironia de querer dançar sertanejo com uma camiseta dos Ramones. Grande erro.
 A aula foi um desastre. Dois passos - aparentemente simples - foram ensinados, e em nenhuma vez sequer consegui acertá-los. Foi fácil colocar a culpa em meu par no começo, afinal ele era tão ruim naquilo quanto eu. Mas a desculpa não colou quando o professor inventou de fazer rodízios de casais.
 Todos eram simpáticos, tentavam me ajudar, o que por sua vez me deixava mais irada com minha falta de ritmo e com o relógio que insistia em demorar a passar as horas. Eu estava presenciando minha dignidade ser morta lentamente. Se ainda haviam chances de paquerar o bonitão da recepção, elas haviam sido aniquiladas.
 Forcei o bom humor a aparecer. Rir de minhas próprias desgraças sempre foi minha maneira de ignorar o constrangimento, mas eu precisava de alguém para rir comigo. Alguém tão ruim quanto eu, ou seja, meu primeiro parceiro. Infelizmente, o fulano deu um jeito de aprender os passos. Desconfio que tenha sido culpa da loira de meia idade que bate cartão nas aulas de samba rock.
 Agora não tinha jeito. Já não podia botar a culpa em meus parceiros de dança e o professor já havia desistido de mim na décima tentativa de me ensinar aqueles tão singelos e simples dois passinhos. Ao invés de tentar aprender a coreografia, desisti de minha carreira de dança ali mesmo. Eu estava mais preocupada em ver os prós e contras de não saber dançar.
 Primeiro contra: se a fórmula secreta de conquistar o coração de um homem inclui dançar, eu realmente estou ferrada. Já não tenho o dom da cozinha e mal sei lavar minha roupa. Sou mais do tipo que discute sobre tudo e adora ter razão e ser provocativa. Se isso não for sexy o bastante, estou destinada a passar a vida assistindo à "Forrest Gump", alimentando gatos e me perguntando se o amor existe mesmo ou se não passa de uma fábula. Um ponto a menos para mim.
 Por outro lado, não saber dançar só pouparia meu futuro parceiro de ter que me levar às quintas-feiras de dança no salão da esquina em nossos 20 anos de casados. Caso contrário seríamos como Dona Nenê e Lineu, de "A Grande Família", indo ao "Petisco da Velha" dançar bolero, ou sertanejo! E sinceramente, não, obrigada!
 Quando a aula acabou, recolhi o pequeno resto de dignidade que ainda me sobrava e saí do ambiente. Com um falso sorriso de "Haha, sou horrível nisso! Não é engraçado?", me dirigi à saída da academia, acompanhada do olhar de pena de uma das recepcionistas, que soltava um "amável" sorriso que soava como uma desculpa por ter me convidado a participar da aula.
 Mas talvez eu não seja assim tão ruim. Talvez tudo não tenha passado de azar causado pelo simples fato de estar com a camiseta errada no lugar errado. Uma espécie de punição, sei lá.
 Me convenci disso durante o trajeto para casa, mas ao deitar a cabeça no travesseiro em minha breve reflexão diária, o lado realista de minha consciência exclamou: "Fala sério, o que diabos estava tentando fazer?!". Ao menos não serei acusada de não ter tentado, só de ter me exposto ao ridículo. Se bem que ainda sim devo ter divertido alguém. Sabe como é, pimenta no rabo dos outros...