domingo, 1 de dezembro de 2013

Olha! Uma bolsa nova!


Eu comprei uma bolsa nova.
É, eu. Eu mesma, Daniela. Aquela que recusou-se a gastar dinheiro com algo totalmente útil que necessitei por quase dois anos. E acredite ou não, comprar esta bolsa foi simbólico!
Não pensem na bolsa como apenas uma bolsa. Vejam bem, eu estou nesta fase realmente ruim em que tudo parece conspirar a favor do caos. Quisera eu estar sendo dramática!
O pior de estarmos em situações ruins é que, de certa forma, perdemos muito tempo nos sentindo injustiçados e esperando que soluções caiam do céu simplesmente porque, em nossa concepção, a ordem natural das coisas é de que a natureza precisa dar um jeito na bagunça em que nos metemos - afinal, nós merecemos essa consideração, não é mesmo?
Só que a vida nos ensina da pior maneira que nada disso vai acontecer. Se continuamos parados, continuaremos parados, assim como nossas vidas. Desejar a mudança sem tentar mudar é a coisa mais frustrante babaca que pode haver. Esta nossa soberba em ficar achando que não merecemos passar por certas coisas não passa de uma desculpa para o comodismo.
Sei disso porque eu mesma tenho usado isso como desculpa. Se penso em desistir da dieta, de um amor, de uma vida saudável, de um emprego bacana ou pior, desistir de mim mesma... Poxa, deve haver algo de errado aí. E será que a culpa é mesmo do mundo? E se for, e daí?
Percebi que em certo momento atingi o fundo do poço - lentamente - e apenas porque eu estava desistindo de mim. Eu estava aceitando que a vida não passa de uma sequência de erros onde não temos o menor controle sobre nada. E ela é mesmo! Mas quem disse que eu devia me convencer disso?
Já disse muitas vezes que a existência humana depende basicamente de buscar um sentido. Eu perdi o meu sentido e não estava dando a menor bola em encontrá-lo.
Então, minha consciência - uma dama extremamente chata e persistente - não me deixou desistir. Naquele momento solitário onde eu me vi sentada sozinha, lamentando sobre tudo e todos para mim mesma - sou praticamente a única que ouve as próprias lamentações existenciais - me ocorreu um lapso de vaidade.
De repente eu lembrei que eu precisava de uma bolsa nova. A minha estava um trapo, e não havia nem como usar a desculpa de que quanto mais velha, mais vintage -  e ser vintage tá na moda! Aquela bolsa havia presenciado muitas histórias. Histórias que agora tinham que ser deixadas pra trás.
Ali, eu não estava carregando apenas minha carteira e meu batom rosa mate - que, a propósito, faz eu me sentir uma diva. Eu carregava um passado cheio de belas, hilariantes, horríveis e constrangedores histórias, e este passado tinha que ficar aonde ele pertencia: ao passado.
Pois então, sim, eu comprei uma bolsa novinha e linda. Confesso que me custou dois cardigans e uma linda calça que eu namorava há um tempo...Mas sabe como é, utilitários são utilitários.
E eu estava precisando de um novo espaço para histórias novas.


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O que eu chamo de...



Minha ideia de felicidade costumava ser muito superficial. Me bastavam roupas descoladas, um cabelo bem arrumado, uma boa roda de amigos e piadinhas a tira-colo no happy hour. Mas depois de todos os itens desta suposta "lista da felicidade" estarem preenchidos, sempre restava um vazio, daqueles que até ecoam.
A verdade é que minha ideia de felicidade era uma droga - em todos os sentidos da palavra. Era viciante porque depois que passava eu sentia a necessidade de viver tudo aquilo de novo para ter a mesma sensação passageira, e uma droga porque mal sabia eu que estava apenas insistindo numa farsa.
Passei por momentos terríveis nos últimos dias e podia desmoronar a qualquer momento. O que eu precisava para reencontrar a felicidade estava bem longe dos bares ou das rodas de fofocas. Estava longe também das paixõezinhas que nunca me levaram a lugar nenhum. Tudo o que eu conseguia fazer era me sentir desanimada e sozinha. Cheguei a me perguntar - dramaticamente - se seria a existência apenas uma sequência de erros orquestrados. E se fosse, valeria mesmo a pena vivê-la?
São dias difíceis em comparação aos meus dias "felizes", sabe?
Mas no meio de toda esta tormenta, me dei conta de que a felicidade não tem nada a ver com o que nós desejamos de forma tão supérflua. Tudo o que eu queria era viajar, emagrecer, namorar, beber e farrear. Sério que essa era minha fórmula mágica para encontrar alegria? Admito que ela foi muito eficaz quanto à alegrias momentâneas, mas eu me esqueci de um pequeno detalhe. Tudo bem, na verdade é um detalhe importantíssimo! Tão importante que é provável que "detalhe" não seria a nomenclatura ideal para ele. Ele é a essência da felicidade... A paz.
Era isso que me faltava. Era ela o encaixe perfeito para o buraco dentro de mim e, por mais improvável que pareça, me encontro plenamente agradecida por todas estas lutas tão árduas. Do contrário, eu continuaria com o showzinho de minha falsa felicidade, estampando um belo sorriso enquanto, na verdade, sentia amargura dentro de mim.
Eu precisei ser levada ao campo de batalha e lá me machucar e refletir sobre a vida como se estivesse em meus últimos momentos. E não porque eu gosto do drama, mas sim porque seria inadmissível continuar vivendo de mentiras e disfarces.
E agora, posso dizer com toda a certeza do mundo que, apesar de ainda estar no meio de uma guerra, a paz habita dentro de mim de maneira que nem em meus momentos mais tranquilos ela conseguia.
E por achar que estava sozinha, encontrei a melhor companhia e o amigo mais fiel. Agora fico feliz em dizer que sou movida pela fé, e não por meus antigos disfarces.
Acho que isso é que eu chamo de felicidade.

domingo, 10 de novembro de 2013

Olhos vendados


Eu estive com os olhos vendados - metaforicamente, é claro. Tinha a falsa sensação de felicidade e era tudo momentâneo. Depois não restava nada. Eram apenas obrigações e mais obrigações. Mas no fim de semana, a obrigação era 'fazer de conta' que tudo era maravilhoso.
Digamos que sou um personagem de "As crônicas de Nárnia", vivendo em um mundo cheio de coisas bacanas. Eu me habituei à este mundo onde a realidade era muito bem disfarçada através de sorrisos, palavras inteligentes e falsas demonstrações de carinho.
Só que tiraram a minha venda. Ou melhor, eu mesma tirei.
O tal mundo "fantástico" não passava de escuridão. Não havia honestidade ou lealdade. As pessoas eram descartáveis, os momentos não passavam de momentos, nada era especial. De fato, este sentimento só brotava "de mentirinha". Fazer alguém se sentir único e especial, ali, não passava de estratégia de guerra. Depois que funcionava - quando a guerra já destruíra grande parte de alguém - o estrategista mudava de batalha. A grande vantagem era dominar, e não sentir.
A verdade sobre aquele mundo pareceu um pesadelo. Ao menos Nárnia era uma fantasia interessante, apesar de seus protagonistas voltarem para a turbulenta Londres em guerra. Ao menos Nárnia era a representação da esperança, e quando há esperança não há tanto espaço para mentiras.
A terra em que habitei era um campo minado. Por sorte, tirei a venda pouco antes de dar um passo em direção à realidade. Não deu tempo de ser mais atingida por tanta mentira, apesar de ter saído de lá com meus ferimentos ainda à mostra.
As verdades que me libertaram foram as mesmas que me encheram de medos e inseguranças. Elas me quebraram, mas logo depois me reconstruíram.
Caminhei sozinha quando tentava distinguir o real do falso e paguei o preço por tanto tempo de ingenuidade.
Só que as feridas cicatrizaram e de algum modo me tornaram mais forte. Vejo tudo mais claramente, sinto com mais intensidade. Você passa a entender as coisas de modo diferente. A amplitude de minha visão é impressionante. Não há mais limitações.
As batalhas que travei e que tanto me machucaram me trouxeram à um lugar que nem mil Nárnias poderiam me trazer. Por quê?
 Paz, meu amigo. A paz mais real que eu podia querer.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

O amor acaba


 Nos últimos meses tenho me fechado para o amor. O amor que digo é o que minha mãe chamaria de "safadeza", mas não no sentido 'safado' da coisa - minha mãe não é lá muito romântica.
 Imagino que isto seja um mecanismo de defesa. Parece que só agora eu consegui me dar conta de como perdi meu tempo com as pessoas erradas. O chato de descobrir isso é que, no fundo, a gente sabe que foi insuficiente, e procurar saber o que é que nos tornaria suficientes é o mais irritante dos mistérios.
 Tão irritante que desisti de tentar achar a solução para a insuficiência que aparenta me habitar. Eu não tenho me forçado a agradar ou conhecer pessoas. Eu mal consigo ter paixões platônicas por caras bonitos na estação do metrô.
 O que me consome agora é a oportunidade de me maravilhar.
 Ah, eu não consigo sequer explicar como foi a sensação de ir à um musical, ou a de assistir à um show de rock na mesma noite. De andar pelas ruas vazias dando risada com uma amiga no meio da madrugada e de tomar um café na singela e sofisticada coffee shop bem perto de uma das mais hipnotizantes livrarias que já entrei. Ou agora mesmo, ao terminar de assistir o fabuloso "Meia noite em Paris" de Woody Allen.
 Em todos estes lugares e situações, fui transportada para universos que me pertenceram por horas, minutos e segundos. Como o personagem meigo e sonhador de Woody, Gil, eu gostaria de não me desvincular destes momentos. Eles foram doces realidades ilusórias que me conquistaram de maneira que homem nenhum conseguiu.
 A solidão é sempre mal vista. Sempre a ardilosa senhora da dor e do medo. Mas pra ser bem honesta, por mais que ela insista em me dar cutucões vez ou outra, é ela que tem me dado o tempo que preciso para me conhecer.
 Uma vez, passei muito tempo sem me apaixonar e me descobri. Por mais desolador que parecesse, quando finalmente o fiz eu tinha certeza de quem eu era e do que queria. Já provara do gosto de estar sozinha e isso não havia me matado, só me mudado.
 Só que a gente se apaixona vezes demais nessa vida. Acabamos por perder a razão, e pior: às vezes nos perdemos. Nos perdemos em amores que não passaram de paixões, desejos e utopias. Na maioria dos casos, me perdi nos universos paralelos perfeitos e dei de cara com a parede centenas de vezes, com a mesma pessoa. Quando não fui ingênua, fui sórdida, desleal. Me transformei nas pessoas que haviam me ferido e me senti no direito de usar. Como mulher, sempre com doses extras de sentimentalismo, acabei me apaixonando por meu objeto de 'vingança', e foi uma tremenda besteira.
 Minhas desilusões dariam um livro, ensopariam de lágrimas um travesseiro em uma noite chuvosa, gerariam crônicas cômicas... Guardá-las poderia me inspirar a escrever algo muito bom no futuro, quem sabe até o roteiro de uma comédia romântica - só que mais interessante, com cenários em Paris e New York.
 Mas eu não quero mais carregá-las comigo. São como bons livros amontoados numa caixa: inspiradores, porém muito pesados pra uma garota de 20 anos carregar por aí o tempo todo.

"(...) a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba."

 Paulo Mendes Campos.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O antiquado é que é "cool"



 Hoje em dia tudo é muito artificial. Tirando os adolescentes que se acham autênticos, nem ao menos finge-se mais originalidade.
 Veja só, Hollywood parece ter desistido dos roteiros diferenciados - juro que ser presenciar o surgimento de outro super-herói, desisto de minha utópica carreira de atriz! A literatura já está atolada de temas vampirescos e pornôs para o público feminino e com apenas algumas exceções, quem costumava produzir boa música hoje esconde a voz e o talento - isso quando talento - atrás de batidas eletrônicas e censura a arte da boa poesia. Tudo é massificado. Tudo é pra vender.
 Como estudante de Publicidade, um viva para a era do consumo! Mas no meu âmago, existe uma lamentação pela deterioração dos bens culturais que nos foram deixados. O fato de a modernidade, no quesito cultura, nos distanciar dos talentos natos e da paixão que move a arte me incomoda e muito!
  Estou na época em que agora me recordo mais claramente de coisas do passado. Situações que pareceram ter ocorrido ontem, vez ou outra me dão um toque: "O tempo está passando".
 Isso me faz lembrar de que nunca fui o tipo de mulher que sonha em formar uma família. Meus sonhos estão mais atrelados à viagens, conhecimentos diversificados e uma curiosidade insaciável pelo desconhecido. Ainda assim, quando me imagino como esposa, mãe e até avó, me vejo não apenas contando histórias das tais lembranças, mas deixando um legado cultural para meus futuros entes.
 Daqui há alguns anos, em reuniões de família, estarei ensinando meus filhos a gostarem de bandas cujo auge deu-se há 70 anos. Serei como Adam Sandler: Músicas de 99 em diante estarão descartadas. Claro que uma ou outra se salva.
 Um dia comentei que gosto de cantores menosprezados. Menosprezados pela massa por seu talento, menosprezados por sua originalidade e pela profundidade de sua poesia. Quando digo nomes como Morrissey, Lennon, Ray Charles e até mesmo do meu querido amadíssimo John Mayer, sou logo vista com olhos diferentes. Seria uma honra se não atrelassem meu gosto musical à um possível mau-gosto, só porque não está "na moda" ouvir as canções melodramáticas dos Smiths, ou o antiquado som do Ray. Lennon só é constantemente livrado desta sina porque dizia frases mais impactantes - e como não? Ele era um Beatle!
 Não se valorizam mais os clássicos. E a não ser que determinada figura tenha dito palavras relacionadas à paixão que nos convém postar no facebook - Clarice Lispector revira no túmulo sempre que alguém diz algo idiota em seu nome - ela deixa de importar. Ou pior: ela passa a ser limitada à determinada classe.
 Por isso a massificação é uma merda. Ninguém mais pensa por si mesmo, pois predomina a necessidade criada pelos meios midiáticos de estarmos inseridos dentro dos padrões impostos de acordo com nossa classe social. Daí é que surgem as Annitas, os Dalestes e os Michéis Teló da vida. Sucessos passageiros que só servem para dar espaço à outros como eles.
  A cultura passa por ciclos viciosos. Quem conseguir se salvar, me encontre do outro lado do rio, na ala dos "antiquados". Cantores, escritores e quem sabe até a própria Clarice estarão dando um verdadeiro show sobre o que realmente é capaz de tocar nossa alma, e adivinhe: Não é o David Gueta.


domingo, 22 de setembro de 2013

O que eu senti quando...


 Ontem à noite faltei à faculdade para ir num show. A falta valeu. Esperei exatos cinco anos para ver o cantor cujas cordas vocais e os dedos habilidosos sob as cordas da guitarra tinham o poder de me arrepiar dos pés à cabeça.
 John Mayer conseguiu encher a arena do Anhembi, e eu estava lá testemunhando a sua arte enquanto "No such thing" ecoava por todos os lados. 
 O John - para os íntimos - tem um poder interessante sob mim. No meio daquela multidão, ouvindo um acorde atrás do outro com aquela tamanha sintonia e energia contagiante de sua paixão pela música, eu me senti transcender.
 Então eu não era mais a mesma, ao menos não naquele momento. Meus dramas, problemas e dilemas haviam sumido. Não interessava mais se eu teria que trabalhar dali há cinco horas, ou que estava perdendo uma aula importantíssima na faculdade. Me permiti por duas horas e meia ser levada para onde só a música é capaz de me transportar.
 Antes disso sentia meu corpo enfadado pelo cansaço do dia. Olhava ao redor e me sentia uma estranha em meio a milhares de pessoas que, apesar do que aparentavam, poderiam muito bem serem parecidas comigo em alguns aspectos - afinal, lá estávamos nós assistindo ao show de alguém que a maioria de meus amigos sequer ouviram falar. Mas mesmo que também fossemos muito diferentes ali, foi uma só voz que uniu um amontoado de pessoas distintas. Lá estávamos nós, transcendendo.
 Quem sentiu, sentiu. Quem não pôde, ou não quis, que me desculpe. Foi a melhor sensação do mundo.

Texto de 20 de setembro de 2013.

domingo, 1 de setembro de 2013

Primeiros encontros


- Isso é legal. - Disse ela depois de observar a vista em volta do restaurante à beira-mar. As ondas estavam agitadas e a lua decidira aparecer assim, de última hora, limpando o céu e contrariando climatologistas que garantiam que seria uma noite de nuvens em San Francisco.
 O rapaz à sua frente era bonito. Seu sorriso com covinhas costumava atingir seus belos olhos azuis, que ás vezes pareciam acinzentados. Ele deu uma rápida olhada em volta para checar se o ambiente estava do jeito que ele havia imaginado e sorriu com satisfação ao notar que ela estava à vontade.
- Jantar, sabe? - Disse ela, que agora recebera um olhar um pouco confuso dele - Não é que eu seja fissurada em jantares. - Explicou-se rapidamente - Quis dizer que é um primeiro encontro diferente. Ninguém nunca havia me convidado pra jantar antes.
- Jura? E o que vocês fazem nos primeiros encontros no Brasil?
- A gente costuma ir ao bar, ao cinema, de vez em quando rola um McDonalds. - Ele riu - Não saí com caras muito criativos, ou românticos, nos últimos anos.
- E você é romântica? - Um sorriso astuto surgiu nos lábios dela. Era uma pergunta capciosa. De fato, já se perguntara aquilo várias vezes. Ser romântica envolvia uma série de questões que ela adorava ignorar - o fato de nunca lhe acontecer algo realmente digno de ser considerado como tal a deixara um pouco fria para certos tipos de delírios. É provável que o romantismo fosse um deles.
- Não sei dizer. Acho que o meu subconsciente espera romantismo, enquanto a superfície está sempre preparada para a boa e velha realidade.
- Cinema e McDonalds?
- Não se esqueça do bar.
- Claro, o bar!- Os dois riram.
- Eu sei... Também não entendo porque brasileiros são tão contrários à jantares nessas ocasiões. É uma tática infalível.
- Você acha?
- É claro. Quando vemos um galã como George Clooney fazendo isso, é óbvio que queremos nos sentir especiais como aquela mulher de sorte que conquistou seu coração. Em um jantar, ao menos temos a breve ilusão de que não estão apenas tentando nos embebedar. - Disse ela, logo depois tomando um gole de seu vinho - Há um simbolismo interessante por trás de jantares.
- Pensou em tudo isso quando te convidei? - Perguntou ele com um leve sorriso.
- Acho que eu estaria mentindo se dissesse que não. Até porquê esta já é minha segunda taça de vinho, e eu ainda nem comi a sobremesa.
- Já sei. Beber ativa seu botão da verdade?
- Um pouco pior do que isso. - Ela olhou para os lados, apoiou seus cotovelos na mesa e inclinou-se levemente em sua direção, sussurrando - Eu realmente me convenço de que sou uma filósofa. De repente é como se soltar minhas teorias fizessem as pessoas terem epifanias, eu sei lá. Parece até que é importante. Me sinto inteligente. - Ele sorriu. Estava se divertindo com aquela conversa.
- Eu não sei como, mas você consegue ser incrivelmente charmosa quando faz isso.
- Já disseram que sou uma chata "sabe-tudo", mas 'charmosa' é muito melhor.
- Acho que estavam tentando te ofender.
- Também acho. - Disse ela com uma expressão pensativa, logo depois dando risada.
- Será então que posso me considerar uma espécie de George Clooney? Quer dizer, tudo parece se encaixar perfeitamente. Vejamos, temos o jantar, que foi muito bom, admita.
- Sim, o filé estava ótimo.
- Também temos o mar, bem ali. - Disse apontando - A lua também decidiu me dar uma ajudinha.
- O vinho está ótimo.
- Safra 20 anos. Inacreditável. - Comentou ela.
- Eu nem estou calçando tênis, porque seria muito informal. - Ela o observou com cara de análise.
- Verdade. E este é um belo blazer. A propósito, adorei a camiseta do Nirvana. - Ele sorriu sem jeito.
- Certo... Um pouco informal. - Ela riu. - Você gostou, então está ótimo. E, vejamos... O que falta?
- Hum... Velas?
- Droga! Velas! Claro, como não pensei nisso? Acho que, talvez... - Dizia enquanto tirava algo do paletó - Isso sirva. O que acha? - Ele acendeu um belo isqueiro - Podemos ficar mexendo pra lá e pra cá, como nos shows da Amy Lee.
- Ou incendiar tudo. Acho que estamos bem sem o fogo. - Disse ela, entrando na brincadeira. Ele sorriu e guardou o isqueiro. - E o que falta?
- Não sei. O quê mais? - Foi a vez dele apoiar os cotovelos na mesa e inclinar-se para mais perto dela.
- Nada. A mulher que conquistou meu coração está na minha frente... E ela é incrivelmente linda e muito boa com as palavras. - Ela não conteve um leve sorriso. - Tenho tudo o que preciso bem aqui. - Seus lábios se tocaram num beijo leve, e logo depois seus olhares se cruzaram novamente.
- Que bom que não fomos ao McDonalds. - Disse ela, arrancando risadas do rapaz.

O que te inspira?


 Alguém veio me perguntar: "O quê que te inspira?". Naquele tom presunçoso que às vezes me pego soltando, respondi: "A realidade, dãa". Não é que eu estava mentindo. Na hora, pareceu uma boa resposta. "Realista", eu diria.
 Não sei porquê sempre gostei de me autodenominar uma pessoa "Realista". Acho que gosto da palavra, soa como algo importante, faz parecer que o título cai bem. "Fulana é realista", ouvia as pessoas dizerem e achava o máximo, então decidi que um dia faria jus à isso. Eu sei, quando crianças nos admiramos com cada coisa!
 Queria que alguém tivesse me dito que ser realista o tempo todo não é bem algo digno de admiração. Ás vezes é bom adotar um meio termo. Por sorte, minha tendência a passar parte do tempo imaginando situações e diálogos me livrou de me apegar à esta realidade exacerbada.
 Graças à minha maluquice de viver entre o real e o imaginário, fui capaz de tomar atitudes que moldaram situações e me trouxeram oportunidades maravilhosas. Isso porque viver de realidade o tempo todo leva à inércia. Se enxergarmos o mundo apenas com estes olhos, veremos que ele é, em sua maior parte, cinza. O que dá cores à ele é o imaginário, são as mais loucas ideias que um dia ousaram contrariar um mundo que vivia no preto e branco.
 A luz das ideias é colorida, por assim dizer. Ela dá a impressão de liberdade.
 Hoje me peguei pensando no que me inspirava. Qual é a razão pra me ver diante desta caixa de textos escrevendo sobre a primeira coisa que me vêm a cabeça? Será mesmo a realidade? É só isso que eu tenho a oferecer?
 Meu objetivo como escritora é, antes de mais nada, transportar as pessoas para outros patamares. É sair desta caixa de responsabilidades e deveres a serem cumpridos, é sentir a liberdade, especialmente a liberdade de criar. É não ter que explicar porque eu devia me inspirar, é não ver obrigação nas palavras, é escrever com o coração. Eu estou aqui descarregando os sentimentos e as ideias que não consigo depositar na minha realidade. São as palavras que eu não consigo dizer em voz alta. Minhas verdades e ilusões estão aqui, à mostra. E isso, de certa forma, me liberta.
 Então, na próxima vez que me perguntarem o quê, de fato, me inspira, responderei com um sorriso: a liberdade... A liberdade é a minha musa.

sábado, 31 de agosto de 2013

Dan Brown e nossa vã filosofia...


 Não sou uma pessoa que se apega à autores. Amo livros e as histórias por trás deles. Só que Dan Brown tornou-se uma exceção. E saber que não passo de mais uma entre os milhões que se deixaram influenciar por suas teorias não é tão incômodo assim.
 Suas tramas nos fazem ir mais além e imaginar o mundo como um grande teatro onde as cortinas poderão se fechar a qualquer momento. Nosso anseio como expectadores catastrofistas é que as máscaras caiam e finalmente possamos enxergar alguma verdade nisso tudo. E é essa perspectiva que mantém a dose básica de aventura que necessitamos pra viver. Precisamos de um sentido, sendo assim, por que não criar mais e mais teorias e imaginar vários significados por trás delas?
 Na primeira vez que ousei ler Shakespeare, sua célebre frase: "Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia" mexeu comigo. Tá, eu tinha 14 anos e nenhuma noção do que era a vida, mas estava começando a descobri-la. Esta frase despertou a curiosidade que mantenho até hoje como parte intrínseca de mim.
 O que me deixa razoavelmente irritada é o fato de nomearem tudo aquilo que foge de um padrão imposto como "teoria da conspiração", como se não passasse de um bando de baboseiras. Certo, existem um montão de baboseiras por aí cuja nomenclatura é realmente digna de 'teorias conspiratórias' - a teoria das canetas BIC que o diga! - mas nem tudo que foge do normal é de fato absurdo. Só não estamos acostumados.
 Então, Dan Brown fez com que eu me apaixonasse pelo gênero. Prova disso é que estou tentando escrever o romance mais difícil que já ousei tentar. Abri mão de falar em primeira pessoa e abordei temas que fogem do fator 'romântico' que eu tanto escrevo.
 É complicado. Desisti dele dezenas de vezes e o bloqueio criativo têm sido meu pior inimigo. Mas por alguma razão, eu continuo voltando à ele, como se ainda houvesse muito a ser dito e as palavras certas acabariam surgindo alguma hora.
 No último mês, acabei reclamando muito de que não estava me sentindo desafiada o bastante. Pelo que vejo, este é um dos desafios que eu tanto almejava.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Crônica


 Nós passamos da nossa estação. Eu estava louca pra soltar um "Eu te avisei", mas ele o fez primeiro numa tentativa péssima de me imitar. Sabia muito bem que minha voz não soava assim tão fina e que eu não fazia caras e bocas como havia interpretado. Mesmo assim eu ri.
 Agora, tínhamos duas escolhas: descer na próxima e caminhar até nossos destinos - separados por algumas ruas - ou permanecer ali naquele vagão, vendo as estações passarem, esquecendo dos compromissos que nos aguardavam. Seria isso? Comentei que não seria uma boa ideia ter que aguentá-lo por mais estações, especialmente sem destino como estávamos. Ele riu na minha cara e disse algo sobre eu odiar vê-lo partir...Era melhor eu aproveitar.
 "Quem você pensa que é?" - pensei, ultrajada.
 Mas a pergunta foi mais pra mim do que pra ele. Quem ele era para mim, afinal?
 Tivemos lá nossas diferenças no começo. Era uma relação estranha, cheia de altos e baixos, momentos de crises cinestésicas seguidos por uma tremenda falta de lucidez e, no final, desabafos sobre como nossas vidas amorosas eram terríveis do ponto de vista ideal.
 Eu o conhecia bem. Bem até demais, suponho. Estávamos naquele nível em que a intimidade é tanta que pequenas gafes nem nos incomodavam mais.
 Agora estávamos naquele vagão, que esvaziava muito rápido, nos deixando a sós num jogo de "quem desvia o olhar primeiro". E eu quase ganhei, se não fosse aquele maldito pensamento... Traída por meus desejos secretos, me vi sendo obrigada a desviar o olhar. Aquilo era demais até pra mim.
 Ele sorriu como se a mesma coisa houvesse lhe passado pela cabeça, e eu murmurei um xingamento enquanto tentava conter um sorriso, inutilmente. Só que sua crise cinestésica parecia ter voltado mais uma vez, como naquela noite em que eu estava muito bêbada e precisando desabafar com alguém a raiva que eu estava tentando afogar com cerveja nas últimas horas. Sua mão agora tocava o meu queixo e me obrigava a levantar os olhos para encará-lo - e eu desejei estar bêbada de novo. Não estava habituada a deixá-lo me ver em um estado vulnerável, cheia de inseguranças com relação à...Bem, nós.
 E naquele momento, cara, eu juro... Juro que foi como se ele pudesse ver a minha alma através dos meus olhos. E foi o fim: a minha farsa havia sido desmascarada. Ele descobriu que aqui havia um coração e me beijou, como se já soubesse que ele estava ali, apenas esperando que alguém o notasse.


sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Restos da história



 Já dizia alguma pessoa bem resolvida por aí que ninguém morre de decepção - ao menos eu nunca fiquei sabendo de nenhum caso do tipo. Só acredito porque até agora não morri. Não é querendo dramatizar à moda de "Malhação", não! Mas tenho uma coleção de decepções bem grandinha, até. E imagino que você, leitor, também deva ter a sua. A única diferença é que variamos bastante o lugar aonde deixamos esta lista.
 Eu gosto de deixá-la na parte do bom humor. É lá que se encontra a minha válvula de escape. É lá onde tranco minhas frustrações depois de transformá-las em chacota. Porque é bem mais fácil rir das minhas gafes e decepções passadas do que ficar remoendo-as.
 Isso mesmo. Eu as tranco! Dificilmente deixo escapar lembranças. Elas me fazem sofrer inutilmente. Para que virem piada, preciso me concentrar nas partes frustrantes e nos momentos constrangedores. Me recuso a lembrar das coisas boas. Ela não me trazem alegria, só saudade e ás vezes possíveis hipóteses a respeito de como teriam sido as coisas caso eu tivesse agido diferente em determinadas situações.
 Só que hoje eu me permiti lembrar. E eu lembrei de cada sorriso arrancado, cada piada engraçadinha e cada arrepio que sentia com o toque dele. E, bem, foi um pouco idiota porque decidi fazer isso enquanto ouvia "Breakeven"* - o que talvez me torne uma imitação não tão ruim dos personagens de "Malhação".
 Sentir toda aquela enxurrada de decepções vindo sob mim foi meio devastador. Eu nem sabia que guardava tanta coisa no meu disco rígido. Meus olhos arderam, eu segurei um chorinho, mas deixei que toda e qualquer possível dor vazasse, só pra que fossem embora de vez.
 E enquanto isso, Danny O'Donoghue insistia em seu versinho: "What am I supposed to say when I'm all choked up and you're okay?" (O que devo dizer enquanto estou engasgado e você está bem?). A pior parte é que eu entendia todos aqueles malditos versos - porque devo ter ouvido a canção umas 500 vezes.  O que eu começava a lutar para entender, mais uma vez, era a razão de todo aquele drama. E foi inevitável não pensar que as pessoas têm esse péssimo hábito de descartarem umas às outras sem motivos exatos, e que isto já estava se tornando natural. A individualidade nunca teve tanta força.
 Quando a música acabou e eu voltei ao meu estado normal, a maior parte da dor, da indignação e da confusão haviam vazado. Com certeza ainda restam vestígios em algum lugar por aqui, fazer o quê?
 Vai virar piadinha de boteco, lembrança pra contar pras filhas, tema de texto pra postar no blog. Porque nada e ninguém é, de fato, descartável. E é por isso que esta nossa história continua com seus restos aqui dentro: Pra que me sirva de impulso para buscar outras.



* "Breakeven" - The Script

domingo, 11 de agosto de 2013

A maldição dos seis meses



 Eu deveria tentar parar de escrever sobre relacionamentos. Só que não consigo me desvincular de um assunto tão interessante e flexível que é este que trata das relações humanas. Isso deve começar depois do primeiro beijo. Bem, ao menos segundos meus registros - tenho este blog desde os quinze anos. Já escrevi muita baboseira romântica.
 Conforme meus relacionamentos foram ficando mais intensos e, consequentemente, mais bizarros - é provado que a vida está de sacanagem comigo! - fui desenvolvendo cada vez mais repulsa por certos tipos de homens. O lado bom é que todo lado ruim destes meus casinhos são uma fonte inalterada de inspiração. Então, obrigada, cretinos!
 Mas voltando ao assunto dos relacionamentos, desenvolvi mesmo esse vício em escrever bastante sobre eles. O que não significa que eu entenda muito sobre o assunto. Estas palavras não passam de resultados de experiências, conversas de bar e idealizações idiotinhas sobre o amor verdadeiro.
 E por quê estou falando disto? É que ultimamente tenho pensado muito em uma das loucas teorias que rondam minha mente de tempos em tempos. A mais recente parece uma maldição, parece tanto que a denominei de "A maldição dos seis meses", que, na verdade, nada mais é do que uma síndrome bizarra que se abate sobre pessoas super legais que merecem tudo de bom mas que estão sendo constantemente sacaneadas pela vida - lê-se "eu".
 A teoria consiste no seguinte: eu me relaciono - de forma romântica ou não - com um cara, que na maioria das vezes adora deixar claro sua repulsa por relacionamentos sérios. Estes caras realmente se dedicam a esfregar na minha cara que a instituição do namoro está falida - assim como a do casamento - e de que é muito mais sensato e "moderninho" curtir o momento como se o mundo fosse acabar amanhã. Óbvio que eles não colocam a situação desta maneira tão criativa, mas é o que costumo entender pelas entrelinhas.
 No decorrer disso que parece um tipo de relacionamento mas que, honestamente, nem sei mais como denominar, ocorre um outro tipo de síndrome que Natália Klein já havia diagnosticado - de forma genial - em 98,8% da população masculina do mundo: a Síndrome do Mestre dos Magos (SMM). O sintoma mais característico é o déficit do coeficiente de presença que, em seu estágio mais avançado, pode chegar à invisibilidade total.
 Passada esta fase, o fim está claro, e você nem precisa se preocupar em receber uma explicação, porque ela não virá - a menos que você resolva cobrá-la, o que não recomendo. Essa ideia de "revolução sexual" que é seguida da cobrança - você corre atrás, e ele não - é só uma desculpa para homens preguiçosos se sentirem justificados por sua falta de consideração, enquanto algumas mulheres acreditam estar se sentindo no controle da situação.
 Só que seis meses depois - é o que dizem as minhas estatísticas - fulano aparece em "um relacionamento sério com Ciclana" - eu sei, que nome terrível.
 Eu posso até parecer paranoica por isso, mas o que no começo não passou de uma brincadeira entre as amigas acabou se tornando verdade! Um dia desses beijei um amigo e, na manhã seguinte, dei um tapinha em seu ombro e lhe alertei: "Não se preocupe. Não demos certo, mas daqui a seis meses você encontra o amor da sua vida". Levou duas semanas pra ele encontrar a garota dos sonhos, o que me faz acreditar que a "Maldição dos seis meses" pode ser bem flexível e depende de fatores como, sei lá, meu nível de interesse por alguém.
 Tenho esperança de que a cura pra isso é justamente o que a torna uma maldição: o tempo. Em outras palavras, eu espero que essa má sorte se esvaia algum dia, e que isso não seja alguma espécie de vodu abandonado em algum lugar inacessível, sem chances de destruição.
 De resto, só desejo à esses cretinos um belo par de chifres! Pois é, também estou me sentindo no direito de ser um pouco imatura por alguns momentos.


sábado, 10 de agosto de 2013

Lógica peculiar


 Meus queridos. Eis mais uma noite de sábado em que me encontro parada em frente ao meu computador. Pode parecer enrolação pra esconder um provável sentimento de tédio, mas eu realmente adoro estes momentos de reflexão, cujas palavras surgem tão naturalmente que é como se eu flutuasse - ok, exagerei.
 Sério, eu não estou entediada. Um dia desses li uma matéria que dizia que o segredo da felicidade é manter-se sempre ocupado. Foi daí que eu decidi aderir isso à minha pequena lista de filosofias de vida. Então, como recentemente terminei uma espécie de "relacionamento", vamos dizer assim, tenho me encontrado a mil por hora, sempre dando um jeito de preencher qualquer tempo livre que venha a me fazer tomar decisões imbecis ou ter lapsos de arrependimento por ter tomado a decisão certa no que diz respeito à minha vida amorosa.
 Pois bem. Eu estou saindo com alguém. Esta pessoa é maravilhosa. Tem um gosto fantástico para música, adora ler, é excêntrica de uma maneira sutil e tem um bom humor que deixa qualquer um nas nuvens. Eu estou saindo comigo.
 Para alguns amigos - Hesmeraldino! - isto seria um prato cheio para me denominar uma "descolada" - digamos que nós temos nossa própria piadinha interna sobre pessoas que vão ao cinema sozinhas (não, eu não fui...ainda).
 Acontece que estou curtindo bastante alguns momentos de solidão. Saio por aí conhecendo lugares em que nunca estive e entrando em livrarias - onde gasto um tempo fora do comum para escolher um livro e me convencer de que não é uma boa ideia gastar quase todo o salário com cinco deles na mesma ocasião.
 Além disso, têm me parecido muito mais agradável fica lendo em casa - ou em qualquer outro lugar com uma dose tolerável de silêncio - do que ir para alguma balada ou encher a cara. E isso é uma fase. Sei disso porque na próxima sexta eu provavelmente estarei tomando uma cerveja com os amigos da faculdade e contando histórias sobre como minhas férias foram IN-CRÍ-VEIS!
 E não é que eu esteja tentando parecer intelectual - tá, eu estou. E quem não está?! - mas eu gosto mesmo de ter estes momentos de expansão do pensamento - sem ter que recorrer à drogas alucinógenas, que fique claro. É que eu estou sempre tentando me desligar daquilo que deveria me fazer mal, e de alguma forma, é melhor recorrer a uma boa dose de conhecimento do que a uma de tequila - da última vez, mandei torpedos constrangedores. Não foi legal!
 Este conhecimento, por mais nulo que possa parecer - o que não acredito, já que considero todo conhecimento válido - é o que me empurra pra frente em fases em que eu deveria estar me torturando com música tristes e relembrando momentos agradáveis que não voltarão mais.
 Uma colega chegou a tentar me convencer de que eu deveria parar com toda a tara e compulsão por livrarias, pois o único motivo de eu estar gastando tanto ultimamente com livros - que nem são de autoajuda - era o fato de que, por dentro, eu estava sofrendo. Sofrendo muito
 Eu sei, eu deveria escolher melhor minhas amizades. Detesto os tipos "psicólogos de boteco" que adoram encher os outros de conselhos que eles mesmos são incapazes de seguir. E se tentam te convencer de que conseguem entrar na sua mente e descobrir tudo o que você está sentindo - sentimentos ruins, é o que dita a regra - vou ter a plena certeza de que esta pessoa é uma cretina! Ora! Caso eu esteja "escondendo sentimentos", eu provavelmente teria uma razão pra não sair por aí molhando o ombro dos outros com lágrimas e lamúrias, e ela se chama bom senso.
 Só que a teoria dela - a tal colega - é uma fraude. Eu não estou magoada, e tampouco tentada a sair por aí me debulhando em lágrimas pra todo mundo ver. Eu só estou "superando uma fase", talvez me preparando para algumas noites de sábado em casa, gastando um pouco mais do que devia, tendo epifanias, desejos e aspirações que há algum tempo não ousava ter por não me achar mais merecedora.
 E com tudo isso eu só posso concluir que não há chance alguma de eu tratar da minha "tara" por livrarias*, blogs ou o site da Superinteressante - e sim, eu continuarei parecendo uma intelectual - porque se há um remédio pra superação, esse remédio é a vontade de se superar, certo? O meu jeito é partir da curiosidade pelo conhecimento e quem sabe surpreender a mim mesma. Vai que, sei lá, eu arranje algum emprego mais legal ou consiga finalmente terminar de escrever um livro?
 A vida - esta cadela, ora miserável, ora espetacular - me botou novamente na seção de autoconhecimento - é capaz até de estar criando pequenos narcisistas com esta atitude. E o único motivo de eu não reclamar é porque eu já estive aqui antes, e olhando em volta... Não é um lugar tão ruim assim.
 Na próxima saída, terei todo um arsenal de informações e experiências que só me servirão para perceber que, na verdade, nunca estive tão bem.



NOTA: *O único motivo de não estar obcecada também com a biblioteca é o fato da minha não estar mais realizando o empréstimo de livros. Por algum motivo idiota, alguém achou que seria uma boa ideia roubar o único computador ultrapassado de lá, e ferrar todo um sistema de empréstimos e devoluções. Agora é esperar setembro pra ver se a prefeitura fez a "gentileza" de comprar um novo. O que significa, sem mais "Guia do Mochileiro das Galáxias" pra mim - depois que você acostuma a pegar emprestado, comprar a obra de Douglas Adam  (por mais genial e divertida que seja) parece um gasto sem sentido.


domingo, 4 de agosto de 2013

O remédio é puramente filosófico


 Eu gosto de filosofia. Certo, talvez eu seja apaixonada por filosofia - isso vem da pessoa que costumava ser uma aluna mediana desprovida de senso de curiosidade. Começou no ano passado, onde tive o prazer de conhecer um dos melhores professores que já tive - senão o melhor. Infelizmente eu saí da faculdade antes que pudesse saber o resultado de minha avaliação em sua matéria.
 Mas ele acabou sendo capaz de plantar uma pequena raiz de curiosidade que tem crescido cada vez mais dentro de mim. Ressalto a genialidade deste cara dizendo que se todos os meus professores fossem como ele, me puniria a cada lapso de sono que me atingisse devido ao cansaço - e não ao tédio, vale lembrar.
 Hoje lembrei dele. Estava eu tendo pena de mim mesma e me perguntando porque a maldita Lei de Murphy tem um prazer especial em me atingir. Enfim, aquela ladainha toda de gente que não tem o que fazer no domingo a tarde e inventa teorias para se vitimizar, esperando que a volta por cima seja muito mais rápida do que de costume. Tendo atingido em algum momento um estado quase apelativo de bom senso, decidi tentar me distrair com algo de útil. Peguei meu "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia" - minha mais nova aquisição que custou todos os meus últimos tostões de sobrevivência no mês - e comecei a ler.
 Foi difícil se concentrar no começo, pois como momentos de bom senso em situações estressantes como a que eu me encontrava costumam ser passageiros, as palavras passavam quase que batidas por ás vezes eu me pegar distraída com minhas perguntas estúpidas a là "Por que eu?".
 Mas a força de vontade foi grande, e de repente eu estava devorando as páginas daquele livro - não literalmente, é claro, pois isso seria deveras perturbador, pra não dizer estranho. A resposta de meus problemas - que, vejo agora, nem eram tão problemáticos assim - estavam bem ali, escondidas por detrás do maldito politicamente correto.
 Em determinado momento, o autor cita, com base nos estudos de Nietzsche e Platão, que temos tendência a descrever mal o mundo porque o fazemos desde um ponto de vista "ideal" e não real.
 Quer dizer que o tempo todo em que eu perdia meu tempo criando fantasias sobre como o mundo e, principalmente - narcisista como sou - minha vida deveria ser, sempre havia um ser mais esperto lidando comigo de forma real e não ideal. Estes seres - vez ou outra denominados de nomes impróprios, dependendo da ocasião - estavam em casa coçando enquanto eu me martirizava me perguntando porque eu não merecia uma realidade idealizada por mim.
 Ao que parece, a razão acalma sentimentos incômodos. Pois acontece que enquanto eu me maravilhava diante de verdades perturbadoras e excitantes, eu passei a não sentir mais nada com relação às minhas neuras anteriores. Tudo aquilo era perfeitamente justificável e, portanto, eu poderia ser madura o bastante para aceitar o desagradável e seguir em frente.
 Talvez ao final de minha leitura eu me pegue muito menos romântica, iludida ou sentimental, e isso faça de mim um indivíduo autônomo, o que aparentemente é doloroso: esta liberdade de pensamento que vai contra o conceito democrático tende a custar bem caro - a sociedade atual diz basicamente que, se você não segue o que os outros seguem, você é um idiota.
 A melhor descoberta da semana foi saber que, ao entender o ponto de vista filosófico dos meus dramalhões, superar coisas que já estavam predestinadas ao fracasso se tornariam muito mais fáceis - e interessantes. Da próxima vez que olhar pra trás e rir ao lembrar dos tais dramas, talvez chegue a agradecer os digníssimos filósofos que, sem nem cogitar a ideia, me ajudaram a superar meus mais idiotas devaneios.


NOTA: O "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaio de Ironia" é do autor Luiz Felipe Pondé.



Crônica de bar


 "Então vamos lá. Mais uma tequila!", pensou a garota enquanto observava o homem à sua frente balbuciando palavras que ela sequer entendia.
 "Garota" era, na verdade, um termo que ela passou a detestar. Ele a enxergava dessa maneira, e isso a irritava. Era uma mulher, estava bem convencida disso. Claro que isso não explicava o porquê de estar tentando se embebedar para aguentar mais meia hora de conversa fiada. Ele só falava sobre ele. Toda aquela "experiência" já foi interessante algum dia, mas agora era um saco. Como na primeira vez em que aceitou almoçar com o dito cujo depois dele tanto insistir em lhe tirar de seu estado animador de paz.
 Desejou saber em que momento exatamente o tirou da seção de "caras chatos" e o pôs em "caras até que interessantes". Num lapso de memória, lembrou que ele costumava deixá-la falar. Era quase como se fosse mestre em fazer mulheres acreditarem que são interessantes e diferentes. "Que golpe baixo", pensou enquanto descia a terceira tequila.
 Ela sabia aonde daria aquele papo todo: no motel mais próximo. Então, devia parecer selvagem e desapegada, como na primeira vez. Estava certa de que evitaria todo e qualquer momento em que seus olhos se cruzassem quase como que, romanticamente, vamos dizer assim. Da última vez aquilo deu em merda.
 E qual é a razão, afinal, para mulheres se deixarem levar tão facilmente por momentos de pura excitação? Não é óbvio que eles são passageiros demais para sequer serem focos de sentimentalismo?
 Não precisava disso. Mais uma desilusão amorosa não estava em seus planos e, honestamente, detestava o fato de que poderia já estar gerando uma coleção delas. Afinal, ele não valia tudo isso.
 E enquanto ele falava e falava, lembrava do episódio de um desenho animado que vira há alguns anos. Um garotinho pedia à seus padrinhos mágicos que lhe tirassem todas as emoções. E quando o fizeram, a garota que ele tanto gostava, mas só o maltratava, estava realmente se esforçando para fazê-lo se sentir um idiota - como de costume. Aquele olhar vago e indiferente do garotinho diante da aprendiz de biscate não saiu de sua cabeça, e ela pegou-se invejando um desenho animado.
 "Ah meu Deus, ele não para de falar", pensou com pesar, sentindo-se um homem diante de uma mulher tagarela e cheia de si. Ao menos ela, no papel de mulher, estava tendo bom senso para fingir-se de interessada. Ou talvez fosse só estupidez mesmo. Quem disse que ela devia sequer ligar em agradá-lo? Ela é quem devia estar no comando!
 A tequila começava a fazer efeito, e ela sentiu-se girar. Seus olhos se apertaram para enxergá-lo mais claramente, e quando deu por si, revirava-os diante de alguma piada sem graça que ele havia contado. É, não estava mais com saco para aturá-lo.
 Seu subconsciente torcia para que ele não acabasse desencadeando uma onda de machismo dissimulado para que não despertasse nela a feminista radical que costumava ser quando estava revoltada com algum de seus peguetes. E acredite, ele era um peguete babaca em potencial naquele momento.
 Quando finalmente parou de falar e resolveu pedir a conta, soltou mais uma piadinha de direitos iguais que envolvia uma de suas "fascinantes" teorias sobre mulheres pagarem a conta do bar. Foi com gosto que ela levantou-se, torcendo para não cambalear em cima dos saltos, armou-se com seu sorriso mais cínico e disse:
- Continue com essa filosofia e você não pega mais ninguém.
 Naquela noite, não houve idas à lugar nenhum que não fosse sua casa, e mesmo bêbada, ela o cumprimentou com um aperto de mão e saiu cambaleando, cheia de dignidade, em direção à porta. Rindo por dentro enquanto sentia germinar a certeza de que naquele corpinho, o babaca não tocava mais.

sábado, 3 de agosto de 2013

"Viver e ser livre..."


 Eu peguei aquele ônibus em direção ao Itaim Bibi, mas eu sabia que no fundo eu estava indo rumo à lugar nenhum. Eu quis ver a cidade por detrás dos vidros, me maravilhar com o céu e esquecer de tudo. Me encontrei petrificada com a paisagem, com as pessoas, a cultura e a arte urbana escondidas embaixo de viadutos.
 "Isso é vida", lembro de ter pensado. Eu havia passado tempo demais sem me surpreender com estas pequenas coisas. Saí pra me vestir com uma nova personalidade - roupas novas, yupii! - e voltei com livros pagos com todo o dinheiro que eu tinha levado com o intuito de me "reinventar". Foi quando eu percebi que não precisava disso, só precisava relembrar a minha essência. Quem eu era havia ficado em um ponto distante de meu passado. Quase fui esmagada por minhas próprias escolhas estúpidas.
 E nestes breves momentos de reflexão, oportunidades surgiram como que por um milagre, e foi como se um peso muito grande saísse de dentro do meu coração. Eu não estava mais totalmente perdida, e ninguém havia me encontrado ainda. Eu havia me encontrado neste estado de esperança que não esbarrava comigo há tempos.
 Quando me dei conta de que não fazia ideia de onde estava, mas mesmo assim adorava a vista, sorri por dentro. Eu podia continuar explorando o mundo lentamente, sem pegar aviões ou atalhos. Porque no fundo, a única razão que tenho pra fazer isso é a imensa necessidade de saber que ainda há muito mais para se viver, mais coisas para ver, mais universos para explorar e pessoas para me maravilhar.
 De repente, me pareceu muito idiota ficar presa em meu quarto, torturando-me com pensamentos insignificantes quando, na verdade, eu estou constantemente diante de um mundo de oportunidades que não se cansam de bater em minha porta, convidando-se para entrar.
 Permiti-las é, agora, minha filosofia.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Não existe "Nós"


 Seus olhos me fitaram de uma forma diferente daquela vez, e por um segundo eu pude jurar que nós, seja lá o que fôssemos um para o outro, estávamos em perfeita e completa sintonia, e aquilo me bastou.
 Eu acredito nessa linguagem misteriosa que os olhos têm, mas devo ser péssima para decifrá-la. É idiota pensar que sentimentos possam nascer de algo que parece tão bom? Ou é algum tipo de esperança que despertou por falta de opções?
 Então nós, em nossa intimidade, rindo, debochando e sorrindo um para o outro, a tal sintonia que eu acreditei ter visto... Não significou nada, não é mesmo? Agora eu sou vítima de um dos piores tipos de silêncio, e acredite, eu não sei porquê. Quer dizer, devo saber. É que dói...Dói saber que foi tudo uma perda de tempo. Pior ainda é ter a certeza de que fui babaca o bastante para sair do meu modo "felicidade", achando que poderia haver em você a oportunidade de poder ser ainda mais feliz.
 Não, não há felicidade mais aconchegante do que a liberdade de não ter o menor interesse em se apaixonar. Pode haver mais intensidade no sorriso, na conquista e nos pequenos detalhes que nos tocam quando estamos neste estado de espírito da paixão, mas agora eu queria trocá-lo.
 O que me mata mesmo é a maldita incerteza. Eu queria ouvir alguma verdades. Você não faz ideia do quanto elas me impulsionariam. Eu ao menos teria mais respeito por você, já que, como sabe, admiro sensatez.
 Apesar disso, tenho certeza de uma coisa: não mudaria nada na maneira como me comportei em relação à nós. Não sou eu aquela que buscava os defeitos. Ao menos a sua busca deu resultados: você encontrou algum, alguns... Poxa, chato não ser perfeita. Pffff!
 Boa sorte pra nós dois. Não guardo mágoa, só um pouco de raiva. Mas tudo bem, porque raiva passa muito mais rápido. Até porque é besteira ocupar meu interior com sentimentos negativos.
 O que tivemos foi bom, mas acabou. Eu não serei mais a mesma. Obrigada pela experiência, nos vemos por aí.

domingo, 28 de julho de 2013

Besteira emocional


 De vez em quando, tenho vontade de declarar o que sinto pra todo mundo ver. Fazer como a Ana Carolina quando disse naquele verso "Eu vou contar pra todo mundo, eu vou pichar sua rua...". É porque abrir o coração deveria me libertar do peso que ás vezes carrego. Pois é, sentimentos pesam demais. Estou de saco cheio de ter que carregá-los.
 É porque ninguém quer ouvir. Dizer "eu estou apaixonada" ou "eu sinto falta dele" parecem palavrões. Natália Klein já dizia que quando não se atribui um rótulo à um relacionamento, as pessoas não nos dão o direito de sofrer com o fim. Então aqui dentro a coisa está um pouco lotada, como você pode imaginar, afinal, faz tempo que não boto rótulos nos meus.
 Então, eu não posso sofrer por algo que nunca me pertenceu. Eu tenho a obrigação de ser forte, por mim mesma. Nunca me senti no direito de fazer cobranças, nunca quis começar uma briga e nunca desejei chorar por ninguém que me magoou. Claro que já fiz essas coisas algumas vezes e logo depois me arrependi. E assim começava um sermão aqui dentro onde eu desejava ser ao menos um pouco como as mulheres barraqueiras que conheço, que se convencem de que estão cheias de razão, mesmo quando não as têm. Depois passava...Muito rápido.
 O problema é que neste curto espaço de tempo entre essa minha vontade e a racionalidade, eu tentava exigir o que não me pertencia. Não sou boa nisso. Até agora ninguém bom o bastante para me dar razão, mesmo que de mentirinha, apareceu na minha vida. Eu tenho dedos apontados para mim que me chamam de irracional, de louca, e quem sabe até de iludida. Esse último é definitivamente o pior.
 Mas parei de pensar que o problema é comigo. Vou abraçar de vez aquele clichê de que sou boa demais pra ele... E todos os que já passaram e foram embora.
 Alguma hora aparecerá alguém que me faça acreditar de novo no que já acreditei, que me faça ter esperanças e que apague a imagem sórdida que eu desenvolvi do ser humano. Porque quanto à isso, eu quero estar errada. Não há lado bom em acreditar no mal, porque não há luz. Neste caso, sou como Renato Russo: "não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas."

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Paraíso proibido


 "Eu não estou apaixonada", disse a mim mesma ao acordar.
 Um dia desses cheguei a admitir que estava, mas hoje acordei com a estranha convicção de que não. Eu e você somos frutos de desejos e curiosidades. Nós queremos o perigo, a ousadia de se aventurar no escondido. Queremos nossas diferenças para que juntos possamos superá-las só pra ter história pra contar.
 É porque nós dois somos o erro mais improvável. Ninguém imagina o quanto podemos ser parecidos...No jeito de segurar o pega mão do carro, na paixão desenfreada por boa música, no jeito natural de usarmos o sarcasmo e no humor negro que ronda nossa mente.
 Esta improbabilidade é o que mais nos atrai e talvez seja por isso que continuamos neste joguinho constante de prazeres proibidos. Nesta relação, ninguém tem que ser de ninguém, só enquanto estivermos juntos. E eu finalmente entendi isso.
 Você é aquela fase maluca da minha vida, onde ultrapasso meus limites e me faço de louca. Só que algum dia a fase vai passar e não passaremos de lembranças um para o outro. Usar rótulos para definir o que temos é perda de tempo. O que nós temos não é habitual, por isso nunca encherei a boca para dizer às minhas amigas o quanto você me faz bem, e você com certeza não fará o mesmo com seus amigos. Mas quer saber? Tudo bem, porque escolhemos por isso.
 Somos o tipo de pessoa que não nos apegamos ao normal. Não queremos rotina, não queremos termos e nem um anel em nossos dedos. Nós queremos nos deliciar na essência de cada um. Estamos apaixonados sim, mas pela vida.
 Algum dia estaremos prontos para sermos aquilo que esperam que sejamos. Neste dia talvez comecemos relacionamentos sérios, e o nosso coração estará comprometido com outras pessoas. Mas até que isso aconteça, gosto de pensar que ainda temos tempo de sobra para continuar nesta peculiar enrascada em que nos metemos.
 Este errado que dá certo de tão errado.

domingo, 14 de julho de 2013

Tempo livre


 Como você pôde perceber, meu caro leitor, eu tenho muito tempo livre. É por isso que vira e mexe me encontro agoniada diante da caixa de texto para postagens - logo depois de rever meu facebook várias vezes.
 Só que tenho considerado meu tempo livre uma lástima - para ser um pouco dramática. Tempo livre em minhas circunstâncias atuais só me serve para pensar no que eu não devo, para sentir culpa do que não preciso e para reavaliar sentimentos cujos resultados só chegarão aos mesmos de sempre.
 Daí eu me encho de livros. Mergulho nos pequenos e extraordinários universos individuais de autores célebres como Oscar Wilde, Dan Brown, George Orwell, Nigel Warburton... Passo a questionar tudo. Passo a querer entrar em meu próprio universo fantasioso que se encontra ali, guardadinho naquela pasta em meu desktop.
 Pelo menos era assim que eu costumava acabar com meu inútil tempo livre. Por alguma razão eu empaquei. De maneira intrigante, fico muito mais criativa e sem bloqueios mentais para escrever romances quando minha vida sentimental está parada. Quando a falta de alguém não é o que vai preencher certo vazio que há dentro de mim, porque eu tenho meu próprio universo para escrever.
 Ao que parece, a falta de drama em minha vida é o que há de melhor no que diz respeito ao meu eu-lírico. Por outro lado, a atribuição deles torna tudo uma bagunça. Uma parte de mim resolve priorizar o momento feliz, até passar a priorizar o responsável por tal momento. E quando a prioridade torna-se indiferente e nada é mais como costumava ser, aparece aquele vazio que aparentemente só será preenchido com este sujeito. Só que eu percebo que não é este tipo de vazio.
 Sinto aquele vazio antes preenchido  por minhas paixões. É como se meu coração estivesse muito cheio de amor, raiva, luxúria e não conseguisse mantê-las em um local seguro. Eu com minha insanidade de me apaixonar por meus próprios dramas expulsei o que havia de melhor de dentro de mim.
 Sabe o que eu sou? Sou o cachorrinho arrependido, voltando com o rabo entre as patas e o olhar de piedade, querendo de volta o amor da minha vida: a inspiração. Quero me aconchegar em seus braços e contar minha história, dizer que sinto muito por ter deixado alguém me afastar dela.
 E por quê? Porque agora tudo que me resta é este confuso, torturante e maldito tempo livre. Somos só nós e minhas péssimas escolhas de prioridades.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Ain't nothing like the real thing, babyy


 Desculpe se eu falo tanto de amor. É que, sejamos honestos, o amor rende. Rende filmes, livros, seriados e um montão de músicas. Eu chego a achar impossível a tarefa de contabilizar quantos músicas à seu respeito foram feitas. O fato é que, se o amor fosse um cara, todas as mulheres estariam obcecadas por ele.
 É por isso que é tão comum vermos o amor como mercadoria. A pessoa que tivesse o copyright desta magnífica palavra seria definitivamente bilionária.
 Penso que, atualmente, nos sentimos invariavelmente sós, e não importa quantas pessoas possam estar ao nosso redor ou online no chat do Facebook, o sentimento será o mesmo no âmago. O que me faz pensar que a solidão é a principal responsável pela popularidade do amor. Ninguém quer estar sozinho. É chato, doloroso e assustador. É como estar em um quarto escuro ouvindo apenas o sussurrar do vento lá fora enquanto deseja ir até lá e, sei lá, falar com alguém? Ok, péssima metáfora - preciso trabalhar isso.
 O mais engraçado é que estamos neste estado constante de solidão - consciente ou inconsciente - por culpa nossa. Porque por algum motivo idiota, alguém decidiu inventar que somos bons demais para precisar de alguém - e a ideia pegou! Agora fazemos parte da era mais individualista que há e estamos presos a isso. Parece até uma espécie de regra social idiota que insistimos em seguir à risca.
 Nós buscamos o amor porque estamos cansados de nossa individualidade, e ao mesmo tempo não conseguimos abrir mão dela. É porque o amor é aquele estado de espírito que te coloca em xeque entre quem você é e quem você pode ser. Ele te desafia a ser melhor, e adivinha: não por você! Porque amar é dar sem esperar nada em troca. É piegas, mas é verdade.
 Mas como eu já disse, o amor rende, por isso ele é moldado e distorcido da maneira que mais for conveniente. Mal sabemos que isso nos machuca mais do que podemos imaginar. É consequência daquela solidão criarmos um mundinho onde o amor está em toda parte, sendo ele o mocinho ou o vilão.
 Se ao menos nos dessemos conta de que quando se diz respeito à ele, nada é tão complicado assim, talvez puséssemos fim à essa comercialização exacerbada do amor. E tudo porque sem todos estes rótulos dados à ele, só nos restaria...Amar.

P.S: Aretha Franklin inspirou este post com sua música maravilhosa.

As donas do jogo


- Eu detesto os homens! Malditos manipuladores! - Declarei, revoltada, em uma conversa com uma amiga. - Eu deveria ser lésbica. Aliás, eu gostaria muito de ser lésbica. Seria tudo mais simples.
- Mas não é você que vive dizendo que mulher é um bicho ruim e que é por isso que prefere ter amigos homens? - Perguntou ela com um olhar de sabidona.
- É, mas nesse caso é diferente.
- Diferente como?
- Estamos falando de relacionamentos entre mulher com mulher. Por mais que no fundo nós nos odiemos, também nos conhecemos muito bem. E uma coisa é certa: quando odiamos, odiamos pra caramba. Mas quando gostamos, somos totalmente fiéis e éticas umas com as outras.
- E isso te faz querer ser lésbica?
- Não, os homens me fazem querer ser lésbica. Pra eles o único acordo de boa conduta que fazem é com a marca da cerveja.
- Ah, e não esqueça do futebol com os amigos! - Recordou-me, parecendo entrar no clima de minha revolta.
- Isso! O maldito futebol! - Tomamos um gole de nossa cerveja enquanto refletíamos sobre o assunto. - Se bem que nós também somos meio manipuladoras. - Admiti.
- Meio? Somos mestres nisso.
- Bem, é uma questão de sobrevivência. Além do mais, todo mundo sabe que as mulheres são infinitamente mais inteligentes que os homens, por isso mesmo deixamos eles acreditarem que isso não é verdade.
- Como assim?
- Ai, bobinha. Se tirássemos a razão deles o tempo todo eles ficariam putos o tempo todo. E fala sério, ninguém merece homem de tpm. No mínimo ele vai procurar outra pra dar razão às escrotices dele. Mas nós, espertas e evoluídas como somos, de vez em quando fingimos que eles estão certos, só pra não quebrar o equilíbrio.
- Equilíbrio, Dani?! Que história é essa agora? - Perguntou ela, agora parecendo bem confusa. Coitadinha.
- Como "que história é essa?!". O equilíbrio de poder, minha filha! Damos um gostinho de poder à eles para, quando nos for conveniente, mostrarmos quem é que manda de verdade. Nós, entendeu?
- Ah, entendi. Vendo por esse ponto de vista, eu acho que não iria querer ser lésbica. Você não sentiria falta desse joguinho?
- Ô. E como! O problema é que não funciona o tempo todo. Pelo menos não com o mesmo cara. Chega uma fase do jogo em que nós mesmas estragamos tudo.
- Do que está falando?
- Ué, não é óbvio? Dos nossos sentimentos! Os homens são uma máquina movida a sexo, cerveja e futebol. Eles não têm tempo pra pensar nas estratégias do jogo, contanto que isso os leve até o objetivo final: transar. Nós, por outro lado, somos super espertinhas enquanto brincamos com eles, esperando receber elogios, saídas divertidas e romantismo em troca de ter um desses pagando de namoradinho. E depois que conseguimos tudo isso e damos a eles a recompensa, já era! E pra terminar de foder ainda mais ficamos apaixonadinhas. E então quando realmente queremos elogios, romantismo e todas essas babaquices, eles só querem saber de transar. E o pior de tudo: nós damos isso a eles! E de graça!
- Isso até eles enjoarem e procurarem outras.
- Exatamente. Você tá começando a entender meu raciocínio.
- É, mas sei lá. Não estamos generalizando demais? A probabilidade de existirem homens que são diferentes pode ser baixa, mas não é uma coisa impossível.
- Pois é. É por isso que deposito minha esperança nos europeus e americanos. Vai que isso é mal de pátria, né?
- Tudo bem, então, nestes tempos difíceis, você realmente toparia ser lésbica? - Fiz cara de pensativa.
- Ah, não, obrigada. Se o amor é um campo de batalha, já pensou que merda ter um inimigo que sabe exatamente quais são suas estratégias?
 Naquele noite bebemos e conhecemos uns gatinhos. Infelizmente eles não eram europeus e nem americanos. Tive que deixar o sonho pra uma próxima oportunidade.


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Meu manifesto

 
 Sabe aquela célebre frase que um ex-bbb usou quando saiu da "casa mais vigiada do Brasil"? "Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto dos meus cachorros"? Olha, o cara estava certíssimo.
 Quando você é mais novo não percebe tão claramente a maldade que pode existir no ser humano. No momento em que você começa a perceber, surgem ainda mais adjetivos para classificá-los. E não fica difícil usar palavras como "miseráveis", "pobres de espírito", "soberbos" ou o tão aclamado "filhos da puta".
 Mas que a maior parte das pessoas são sujas, isso todo mundo sabe. É que ainda nesta minha ingênua revolta eu me pergunto à que ponto chega a falta de caráter, e passo a concluir - infelizmente - que não há um limite. Deixamos a coisa caminhar à este estado de podridão em que nos encontramos simplesmente porque parece impossível um único ato de solidariedade ou ao menos respeito ao próximo.
 Chegamos ao ponto em que nem conseguimos respeitar a nós mesmos. Aceitamos ser tratados como inferiores e abaixamos a cabeça para as injustiças. Tratamos um ao outro com base na conveniência porque aparentemente somos incapazes de parar de olhar para nosso próprio umbigo. É como se houvesse toda uma dinastia da realeza dentro da nossa barriga. Qual é!
 Então sim. Este é o MEU manifesto. Me manifesto contra o lixo que se transformaram as relações. Vamos lembrar que antes de exigir qualquer coisa, precisamos tomar consciência de que estamos todos no mesmo barco.
 Não peço por amor. Sou mais realista. Peço por respeito! 

terça-feira, 11 de junho de 2013

A filosofia do "Tô fazendo nada!"


 Sou daquelas que quando faz alguma cagada se apóia na desculpa de que não estava fazendo nada. Pois é, sei que assim como eu, muitas já se tornaram mestres na filosofia do "Ah, tô fazendo nada, mesmo". Esta filosofia - que recomendo muito em casos de coração partido - faz parte daquela fase conturbada: quando você percebe que não importa o quanto você se esforce pra mudar alguém, isso não vai acontecer. Veja bem, nunca.
 No mínimo você tentará mudar a si mesma. E acredite, vai acabar virando uma megera. Daquelas que só usam, fazem com que os outros paguem na mesma moeda. E veja bem, não é totalmente sua culpa: é culpa do mundo, eu entendo.
  O lado bom é que logo irá parecer que você sequer tem um coração, o que significa que tira de suas costas todo o peso de sentimentos extremos, paixões platônicas e ilusões amorosas. O filtro da verdade vai parar no lugar vazio em que um dia sentiu o pulsar desconjuntado das batidas frenéticas despertadas pelo hormônio da paixão.
 O lado ruim é que, bem...Se não tomar cuidado, vai mesmo acabar ficando sem um coração.
 Não vou mentir: eu estou adorando esta fase maravilhosa de desapego. Pela primeira vez em muito tempo me sinto bem o bastante para não ter que me importar em agradar alguém, e isso têm refletido em tudo. Menos, é claro, em meu medo de me apegar. Por melhor que seja toda essa nova forma de enxergar as coisas, ela só contribuiu para que este meu estúpido medo aumentasse. Afinal, de algum jeito o meu filtro da verdade está na ativa até mesmo quando eu penso que o desligo.
 Sabe o que é isso? Tentar acreditar em algo e sentir minha mente trabalhando freneticamente para me convencer de que tudo não passa de baboseira. E isso é péssimo. Significa dizer que algum dia eu terei que deixar de ter um pé atrás e passar a acreditar que algo vá realmente dar certo - o que nem sempre é tão maravilhoso quanto parece.
 Eu ainda estou na fase do "Ah, não tô fazendo nada!", e a influência disso na minha vida têm sido uma das melhores possíveis. Sempre terá algo a ver com autoconfiança e liberdade. É como viver no extremo entre o certo e o duvidoso e mesmo assim não dar a mínima porque simplesmente não importa.
 Por esta razão é que continuarei seguindo esta filosofia por algum tempo. Quem sabe o que o futuro têm pra mim pela frente? Vai ver eu tinha mesmo que aloprar e viver de acordo com as minhas regras no que diz respeito ao coração. E quando ele tiver que ser restaurado ao "maravilhoso mundo dos sonhos" que é a paixão, apesar de cicatrizado, estas mesmas cicatrizes o farão lembrar do que não fazer - o que não diz muita coisa, já que o amor envolve tudo menos regras ou procedimentos padrões. Ou seja, nós nunca saberemos como lidar com ele procurando respostas na teoria.
 O coração cicatriza, mas não fica imune à novos machucados. O meu não é exceção. Pois é, meus queridos, ele bombeia sangue assim como o seu, e eu continuo propensa à tê-lo partido e repartido em vários pedacinhos, esperando conseguir restaurá-lo para a próxima batalha.
 É o ciclo das coisas. Coração inteiro nunca sentiu algo a mais. Prefiro o meu cheio de hematomas. Me faz lembrar que, apesar de tudo, estou mais viva do que nunca.

domingo, 2 de junho de 2013

Diplomacia


 Tem vezes que eu não quero ser diplomática. Quero dar a louca! Dizer o que penso, ser insensata, buscar razão mesmo sem ter. Ás vezes eu só quero ser um pouco menos diplomática, simplesmente porque a diplomacia é entediante e a realidade um tapa na cara.

domingo, 26 de maio de 2013

Espera (You can go F#ck yourself!)


 Eu odeio atrasos.
 Na verdade, se houvesse alguma escala que determinasse o nível de ódio que alguém pode ter com relação à atrasos, eu estaria no nível máximo.
 Um dia desses marquei um encontro com um ex-peguete que não via há um tempo. Eu estava daquele jeito que só uma menininha apaixonadinha fica quando vai rever o objeto de sua atenção - uma tremenda idiota.
 No caminho até o ponto marcado eu já estava fazendo desabafos sobre meu estado de espírito antes do tal encontro, por estar nervosa e tal. Esperava mesmo que minha consciência me desse sábios conselhos que incluíam um final feliz para aquele encontro, mas ela estava bem negativa. Aparentemente eu havia esquecido todos os motivos que me fizeram xingar o tal sujeito por meses. Pfff... Besteira!, pensei.
 Então lá estava eu, chegando ao tal lugar e logo depois sendo avisada que aconteceu um imprevisto e ele chegaria um pouco atrasado. Pois bem, sensata como sou, respirei fundo, soltei mentalmente um singelo "Tá de sacanagem?" e logo depois deixei pra lá, afinal, imprevistos acontecem, certo?
 O grande problema em ter que tolerar um "pequeno" atraso bem ali no ponto em que escolhemos para nos encontrar era que, bem... Aquele lugar era um tanto perigoso, por assim dizer. Relevei. Estúpida e com esperanças imbecis do jeito que estava, não me parecia um grande sacrifício esperar uns vinte ou trinta minutinhos a mais.
 Só que os minutos foram passando e a lei de Murphy, sempre fiel em seu apego para comigo, fez questão de dar as caras só pra me lembrar que as coisas sempre podem piorar. Pra começar, havia um cara embriagado de calças abaixadas que havia acabado de ser expulso da estação por tentar se "esfregar nas mulheres", palavras do guardinha. Ele deve ter ficado um bom tempo ali parado, sem falar coisa com coisa e soltando perguntas como: "Né, menina?". Olhando em volta, infelizmente a única menina ali era eu. Resolvi entrar na estação. O acúmulo de pessoas ali me parecia um pouco mais seguro do que ficar dando bandeira na rua com o maluco das calças abaixadas.
 Enquanto lia o "Guia do Mochileiro das Galáxias" - que amenizava o nervosismo e a raiva de estar esperando há meia hora o tal sujeito que nunca chegava - bateu uma onda de frio. Sem problemas, exceto que eu estava com as pernocas de fora, com um shorts. Sabe como é, quando saí de casa o sol ainda brilhava e deixava o tempo com uma brisa gostosa de se sentir. Então me pareceu uma boa ideia mostrar as pernas. Erro número dois.
 O livro já estava perdendo o sentido quando se passaram 45 minutos de espera. A paciência que eu nem sabia que existia - deve ser a merda da paixão - estava aos poucos indo embora. À essa altura já estava tudo escuro, meus nervos estavam à flor da pele e eu me esforçava para não soltar em voz alta todos os palavrões que insistiam em passar pela minha cabeça. Não seria delicado da minha parte.
 Reparei que eu teria que beber um pouco além da conta para mudar meu mau-humor e não estragar tudo, se é que ainda haveria algo para ser estragado. Quero dizer, a coisa toda já estava toda cagada, mesmo. Eu era uma solitária dentro de uma estação descoberta, vestindo shorts enquanto o vento gelado batia em minhas pernas, rindo sozinha dos diálogos engraçados de Douglas Adam enquanto tentava equilibrar meu humor na tênue linha entre a minha paciência - já enfraquecida - e a raiva.
 Quando reparei que já fazia uma hora que estava ali, passei a me perguntar se minha consciência não estava certa e tudo aquilo não fosse uma tremenda besteira. Há uma hora eu estava ansiosa para um encontro com o cara que nunca fez questão de me ligar, ou de me visitar. Que nem consegue abrir a boca pra me soltar um elogio, mas tem tiradas "ótimas" quando se trata de zoar da minha cara. O mesmo cara que revelou certa vez que eu era "mediana", mas tudo bem, porque ele curtia medianas. E então, de repente...PORRA!
 É, eu explodi. Não literalmente, é claro. Isso seria doloroso. Saí dali irritada, queimando metaforicamente tudo aquilo que me fez passar tanto tempo achando que seria o máximo. Mandei uma mensagem educada, mas firme: "Estou indo embora". Recebi uma desculpa de "Estou no trânsito" e nem me toquei de perguntar aonde, porque daí quem sabe eu poderia esperar dependendo da distância. Mas a raiva tomava conta e tudo o que disse foi: "Entendo. Só não vou mais ficar aqui. Espero que entenda também". Boom!
 Fui juntando pontos quase de forma obsessiva, como Jim Carrey em "Número 23".
 Ele estava atrasado porque imprevistos acontecem. Bacana. Compreensível. Mas a verdade era: se ele queria aquilo tanto quanto eu, poxa, não teria um esforcinho extra? Quer dizer, sério que eu nem sequer valia uma arriscada básica para fazer o caminho da minha casa que nem era tão difícil assim e já havia sido feito várias vezes?
 A resposta, meus caros, era: "Tá, se você quer assim...".
 Ou seja, um gostoso: "Ah, foda-se. Azar o seu".
 E tudo o que eu consegui pensar naquela hora foi a vaga lembrança de amigas e amigos em conversas paralelas dizendo coisas como: "Se um cara quer, vai até o inferno pra conseguir". E essa revelação, na verdade, nem doeu tanto. Ele não iria até o inferno por mim. Ele nem arriscou o caminho até a minha casa, por favor.
 Mais calma, ao entrar no Facebook algum tempo depois, tenho uma mensagem esperando para ser lida. Era o reconhecimento de 20% da mancada dele, e o resto um amontoado de desculpas que jogavam a culpa e a falta de bom senso em cima de mim.
 Foi inevitável não pensar: "Tá de sacanagem?!", mas honestamente, nem desperdicei palavras. Minha resposta foi um "jóinha". E esse jóinha era um maduro: "Poxa cara, bacana. Boa sorte na sua jornada, mas eu tô vazando da sua vida".
 Não acho que ele entendeu. Ironia não é seu forte, a crítica sim. E é por isso que tenho a suspeita de que, em sua versão da história, consegui o papel de "vagabunda mimada", e tudo porque ele se atrasou por uma horinha...
 Veja só. Tsc, tsc.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Think like a man, act like a lady.


 Ele achou que eu me amarrava em seu sotaque, que seu perfume me excitava e que eu estaria caidinha por ele logo no primeiro beijo. E não vou negar, foi bom. Mas mal sabia ele que por trás desta carinha de ingênua havia uma mulher querendo extravasar suas frustrações.
 Eu não mandei mensagens no dia seguinte, não me fiz de ofendida quando ele não ligou e não esperei loucamente por seu chamado de "Vem me ver". Eu já havia matado minhas frustrações e me esbaldado no calor que me fazia falta.
 Reparei que alguma coisa em mim havia mudado. Não me batiam arrependimentos ou vergonha de olhar para ele no dia seguinte. Não havia sentimentos envolvidos, o que me faz pensar que, assim como os homens, às vezes nós, mulheres, agimos exatamente como eles. A diferença é que somos taxadas de tudo quanto é ofensa.
 E pensar como um homem não é de todo mal. Já parou pra pensar em quantas vezes aquele carinha que parecia um sonho te deixou esperando? Em quantas vezes esperamos uma atitude, uma prova que mostrasse que ele poderia ser diferente, quando esta mesma prova seria algo tão simples?
 Por um tempo achei que estava me tornando fria - e por este mesmo tempo me tornei mesmo. É um período de médio prazo o qual toda mulher precisa passar para aprender a se dar valor e se redescobrir. Não podemos depender de sentimentos que só existem em nossa cabeça, entregando nosso coração para o primeiro babaca que nos elogia ou diz as palavrinhas mágicas "eu te amo" sem sequer demonstrar isso.
 O que estes meninos precisam aprender é que mulher é diferente. O que nos motiva e nos desperta é o significado de algo. Pois é, nós atribuímos três vezes mais significados às coisas do que vocês, homens. E tudo porque passamos tempo demais sendo vistas apenas como um objeto pela grande maioria dos imbecis que ainda se sentem no direito de se denominar "homens".
 Mas para sairmos da posição de meninas e nos tornarmos mulheres temos que pensar exatamente como eles. Infelizmente isso segue o ditado "olho por olho, dente por dente", porque as relações humanas não passam de campos de batalha.
 Um homem esperto - aquele cujas atitudes não demonstrem ser de menino - vai entender, enquanto que uma mulher poderosa vai descobrir seu verdadeiro valor. Só assim para as palavras ao vento passarem por nossos ouvidos e serem decifradas mais facilmente como verdadeiras ou falsas.
 Então, meninos, preparem-se. Não somos mais o elo fraco desta luta. Já sabemos os seus segredos. E vocês, sabem os nossos?

sábado, 11 de maio de 2013

Uma vida espetacular


 Este desejo é imensurável.
 Nem as noites de sábado no bar, as luzes e o som alto da balada ou os amassos descomprometidos são capazes de substituir essa vontade de ter uma vida incrível.
 Nada do que é comum me atrai mais, pelo menos não como costumava fazê-lo. O tipo de "sobrevivência" na sociedade massificada, que inclui os sorrisos forçados, a necessidade de agradar ou os instintos físicos, vez ou outra ocasionados pelo álcool e a solidão, são parte de um mundo vazio demais para eu conseguir viver.
 Por outro lado, a arte, a literatura, as paisagens, a extremidade da sobrevivência, a endorfina que aparece na conquista e as coisas mais inacreditáveis que surgem para nos mostrar que "impossível" e "improvável" são apenas duas palavrinhas que só têm força se dermos força à elas, estas coisas sim me atraem.
 Se eu evitar os dramas inúteis e direcionar minha energia e motivação para as coisas que fazem algum sentido, mesmo que seja um sentido dado por mim mesma, então talvez eu possa alcançar o estado das melhores e mais inimagináveis coisas que há para se viver.
 Quero que meus olhos contemplem além das imagens da tv e do Google o que há de mais bonito, engenhoso e até mesmo improvável. O sentido que estou dando à minha vida não se encaixa neste pequeno mundo de desejos fúteis e programados. Por isso nunca fui capaz de me encaixar em um lugar algum. Simplesmente porque não quero pertencer à um lugar, quero conhecer todos eles. E mesmo que não possa contemplar pessoalmente as maiores maravilhas, quero tê-las guardada em corpo e alma.
 E que este sentido faça parte do meu coração. Que me complete de alguma forma e que me livre do comodismo da padronização.

 Amém.

domingo, 5 de maio de 2013

Ciclo vicioso



 Todo mundo quer estabelecer um padrão do que é moralmente aceitável. Se não seguimos, somos classificados sempre de uma forma negativa. Só que infelizmente os "discípulos" de todos estes padrões que adoram designar aos outros nunca se perguntam se eles mesmos estão em condições morais de tal ato.
 Acontece que essa pressão toda pela perfeição da igualdade - que me irrita, aliás - bagunça tudo. Algumas pessoas desejam tanto ser contrárias ao que os outros pregam que criam personagens para si mesmos e acabam se perdendo nos dramas de uma crônica inventada só pra fazer birra com o mundo.
 Depois de um tempo fica difícil se reconhecer. A essência de quem realmente são foi deixada em algum lugar que parece ser longe demais para se cogitar a possibilidade de voltar atrás.
 Colocam a máscara, vestem o figurino, incorporam uma personalidade totalmente diferente da que já tiveram um dia, e assim passam a viver a vida de um ser inventado, sem essência, correndo atrás do sonho dos outros, distribuindo sorrisos vazios e soltando palavras ao vento.
 No âmago falta algo, mas há uma certeza: a fé nas pessoas é só uma fábula.
 Nessa peça de teatro mal dirigida, onde todos sorriem, caçoam, mentem e magoam, os holofotes estão voltados para seus protagonistas, antes revoltados, e que agora não passam de marionetes da sociedade. Sem querer, transformam-se nos moralistas, passando eles mesmos a estabelecerem  seus próprios padrões, criando seus próprios preconceitos e excluindo aquele indivíduo com personalidade ainda intocada pela podridão de uma sociedade que lida com homens como se lidasse com máquinas.
 A questão é: Neste maldito ciclo vicioso, restarão personalidades fortes o bastante para construir o caráter necessário e decente para o futuro ou estaremos sempre à mercê desta fábrica de atores que transformou-se  o meio viral em que estamos vivendo?

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Reflexões


 Ninguém pode nos culpar por atribuir significado às coisas. Já pensou no quão seria solitário viver em um Universo onde nossa única certeza era a de que não passamos de uma parte insignificante no território sem fim em que habita a existência?
 Pois se isso torna tudo vazio e todos os fatos são meras coincidências, qual seria exatamente a graça de existir? E se por um acaso não houvesse graça alguma, por que é que somos tão contrários à ideia de dar valor ao significado que o resto das pessoas dão para certas coisas?
 É como se tudo não fosse mais do que mercadoria de consumo. "Façam um filme sobre o amor e as pessoas amarão". É como se não amássemos quase nada de verdade. Nos habituamos a transformar tudo em produto, até mesmo as pessoas. Ama-se coisas e usa-se as pessoas. Essa é a verdade.
 E porque é mesmo que aceitamos isso com tanta naturalidade mesmo? Quer dizer, por que diabos nos deixamos ser usados?! Pelo direito de também usar? E isso, por sua vez, não nos levaria à simples verdade de que realmente não passamos de uma parte insignificante no território da existência?